segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vida e poesia

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.

E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Obrigado, José Mourinho

Carta aberta a José Mário dos Santos Mourinho Félix :

De Norte a Sul, no Estado, na economia, na moral, o País está desorganizado. Escreveu Eça de Queiroz, nas suas Farpas, não faz assim tanto tempo.
É precisamente na dificuldade e na austeridade que temos de ser criativos e, enquanto uns se afirmam independentes desta pretensa desonestidade dos homens públicos e das instituições diariamente escarnecidas, quando afinal são de todos os partidos em função da circunstância vitoriosa, tu mostras que é nos momentos de dúvida que a consciência do desafio permanente e de confrontarmos os nossos limites é que nos leva ao sucesso.
De ano para ano, de mês para mês, a ruína económica cresce e o desprezo pelas ideias aumenta progressivamente. Pergunta-se o povo se vivemos num momento em que é mais importante o desenvolvimento e o bem do País ou as intrigas ideológicas. Ao invés, tu, em vez de sono, fazes serviços ao bom senso e à competência. Sem medo das críticas dos outros, apontas a dedo, dia por dia, a realidade que observas do mundo que todos vemos, mas que, sem excepção, fingimos não acreditar.
Neste Portugal, em que ninguém quer um trabalho, mas sim um emprego, e que se dá tolerância de ponto ao meio dia da véspera de um fim-de-semana prolongado de quatro dias, os teus funcionários/jogadores trabalham a teu pedido, sempre ao mais alto nível, o tempo que lhes exigires. Eles fazem todos os sacrifícios porque acreditam em ti, que os lideras, e aplicam-se na perspectiva das concretizações vindouras, onde acabam por se ver recompensados.
Neste país em que não se consegue ver televisão, tanta é a desgraça e a insolvência, onde todos estão de pedra e cal na corrupção, ninguém é preso e pede-se conhaque, tu mostras que é possível beber champagne, em média, 3 vezes por ano, e de forma merecida.
A verdade é que todos os dias somos notícia pelo mundo fora, pela negativa, em virtude do nosso comércio que definha, da indústria que enfraquece e do salário que diminui. Em simultâneo, pelo contrário, de ti, que não queres ser cúmplice nesta indiferença universal, todos os dias temos ouvido cantar “melhor Portugal”. Contigo, levamos bandeira e clarim para todo o lado. Nesta jornada da crise económica e política (desde que nasci há 27 anos atrás que julgo que todos os dias ouvi a palavra “crise”), felizmente, não vamos sós afinal.
Exemplo disso mesmo é a recente conferência de imprensa em que falavas da conflitualidade da Taça do “vosso” Rei, como afirmavam os líricos de Barcelona, tão valentemente por ti vencidos. Mesmo sabendo que não existe nenhuma solidariedade entre os nossos concidadãos, orgulhosamente, disseste que eras de um país pequeno, a atravessar graves problemas, mas muito mais unido.
Neste nosso Portugal, em que a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro, também os pseudo-intelectuais gostam prontamente de criticar o ópio que é o futebol. Logo por isso, encheram-se de azedume e cólera os comentários replicados nas páginas da internet que apontavam como indecente a interrupção de uma entrevista de Pedro Santana Lopes para acompanhar a tua chegada a Portugal 3 anos depois da aventura inglesa.
Achas que foi desrespeitoso? No meu entender desrespeitoso é não reconhecermos que muito mais fizeste tu pela imagem do nosso país do que todos esses senhores de viver espiritual e intelectual parado. Faça-se a experiência de te pôr ao lado de um qualquer governante deste país e deixar um conjunto de crianças correr na vossa direcção. Aposto que até o filho desse político te pediria o autógrafo primeiro (e apenas?) a ti.
De quanto em quanto tempo, em Portugal, aparecem indivíduos de extrema qualidade. Várias são as figuras. Desde o Infante D. Henrique ao Engenheiro Edgar Cardoso.
Noutro país qualquer que se queira moderno e civilizado os feitos dos conterrâneos são elogiados, a escola criada é mantida e os discípulos são deixados. “As gerações vêm e vão, mas a Terra mantém-se eternamente firme. O Sol nasce e põe-se e tudo recomeça…” que será perpetuamente na Alemanha e no Japão que os peritos mundiais em química orgânica e tecnologia se encontrarão, respectivamente. Mas desde quando Portugal é uma escola mundial de navegação ou de construção de pontes?
Até nisso já soubeste dar uma lição a Portugal que ainda mingúem retirou. André Villas-Boas, embora agitador e muitas vezes mal criado, com quem finges te dar mal para lhe retirar pressão, é a tua escola. E o primeiro discípulo que deixaste. Pela tua mestria e visão das coisas antes do tempo, por muitos anos, irão portugueses dar cartas no futebol por esse mundo fora. E o futebol é um fenómeno social e de aproximação de povos e culturas muito maior do que muitos julgam ou valorizam.

Sou benfiquista, José. Confesso-te que também fui um dos que, perante a história mal contada pelos jornais, se satisfez por teres saído de treinador do meu clube. Porém, aproximadamente uma década depois, na passada quarta-feira, não hesitei em ver primeiro e muito mais atentamente o Real Madrid - Barcelona do que o Benfica - Porto.
Gostava de te conseguir reproduzir em palavras a festa que fiz junto dos meus amigos com o golo do Cristiano Ronaldo já no prolongamento, mesmo já depois de conhecer o resultado humilhante do meu clube, que supostamente me havia deixado triste e embaraçado.
A globalização, julgo ingenuamente, é isto mesmo. Torcer por quem merece. Esteja em qualquer lugar do Mundo, hoje em dia, a televisão permite torcer por quem faz da luta pela vitória, pelo resultado positivo e por ser o melhor um bem-estar e uma indústria. E esses é que devem ser os exemplos que seguimos. Em tudo.
No passado recente, o meu clube tem-me desiludido. Os pergaminhos de clube com deferência institucional, democrático, natural, espontâneo, humilde e vitorioso, que o meu Pai me ensinou, e em que me revia, estão substituídos por uma cultura com a qual não me identifico. Política de carroçaria e não saber ganhar nem perder que envergonha até as pessoas de bem. Desde a escuridão a que a imagem do Benfica foi submetida ao mundo inteiro, como à auto-ridicularização das palavras a que determinados dirigentes se submetem, cada vez me têm dado vontade de me tornar sócio de um outro clube: sócio do F. C. José Mourinho.
Um clube de sucesso e que o atingiu por ser trabalhador, genuíno, nacional, carismaticamente líder e que defende, de forma intransigente, os seus.
No fundo, não mais do que à imagem do que verdadeiramente são os portugueses. Só precisam de um ligeiro incentivo, que se tem tardado em fazer lograr.

Recebe um abraço de quem gostaria de um dia vir a ter apenas a oportunidade de cumprimentar-te pessoalmente e poder fotografar esse momento para que, um dia, se vier a refazer, em sonho, todo o percurso de vida, me lembrar de que havia, pelo menos, um português que valia a pena.
Obrigado, José Mourinho.
Com as mais cordiais saudações vitoriosas,
Fernando Arrobas da Silva

terça-feira, 19 de abril de 2011

Conversas entre... Guerra Junqueiro e Eça de Queiroz

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, sem um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas (...) "

Guerra Junqueiro

" Este país, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com expedientes. Quando vier a revolução contra os expedientes, o país há-de procurar quem tenha os princípios. Mas quem tem aí princípios? Quem tem aí quatro princípios? Ninguém; têm dívidas, vícios secretos, dentes postiços; mas princípios, nem meio !

Eça de Queiroz

domingo, 10 de abril de 2011

Carta aberta ao Presidente do FMI

Exmo. Senhor Director Geral
DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL
Senhor Doutor Dominique Strauss-Kahn
        
Assunto: Ajuda externa a Portugal – Proposta de Investimento Estratégico

Fernando Arrobas da Silva, Médico Dentista, com a cédula profissional número 07579, licenciado pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, vem, muito respeitosamente, expor e requerer a V.Exa. o seguinte:
Portugal, oficialmente República Portuguesa, como é naturalmente do seu conhecimento, é um país localizado na região sudoeste do continente europeu.
Como escreveu Luís Vaz de Camões a nossa “ocidental praia lusitana” possui uma área total de 92 090 Km2 para um total de, aproximadamente, 10 milhões de habitantes.
Apesar da crise económica assoladora em que nos encontramos presentemente, julgo que os tempos de crise devem sempre ser enfrentados, com rigor, mas também como um espaço para novas oportunidades. Portugal, ao longo da sua história de 872 anos de independência, sempre deu inúmeras provas de superação nos momentos mais complicados.
Portugal é um país de pessoas humildes e trabalhadoras. É um país de grandes mestres de literatura e a língua portuguesa está entre as mais faladas do Mundo. É um país incomparável no seu esplendor e qualidade das suas regiões turísticas. É o país de Eusébio, do Mar (...). É o país do Fado.
É também, contudo, e daí a razão desta missiva que lhe escrevo, um país desdentado.
Segundo alguns dados estatísticos apresentados pela credível Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco), do ano de 2005, um em cada cinco portugueses já perdeu, pelo menos, dez dentes. Enquanto os adolescentes se queixam sobretudo da falta de alinhamento dentário, o principal motivo apontado pelos adultos é a falta de dentes.
Permita-me, Senhor Director Geral, que junte nesta carta uma pequena explicação decorrente da perda de dentes.

Estas imagens ilustram que, com o tempo, a não reabilitação dos espaços correspondentes ao local dos dentes perdidos, e consequente migração dos dentes remanescentes para esses locais, traduz-se num padrão de posicionamento dos dentes alterado, afectando as funções naturais de fonação e mastigação.
Além disso, criam-se determinados espaços extremamente difíceis de higienizar, o que pode originar cáries e doenças gengivais/periodontais nos dentes adjacentes, levando à perda consequente de mais dentes, no sentido da desdentação total.
As principais funções da cavidade oral são a mastigação, a fonação e a estética.
A perda de dentes origina consequências na saúde dos indivíduos a vários níveis. A alimentação ser composta fundamentalmente de comida mais mole e açucarada, em virtude da falta de eficiência mastigatória, pode ter como consequência, por deficiências nutricionais, outro tipo de doenças metabólicas, como a diabetes ou problemas cardiovasculares, que acrescem em grande número os custos do nosso Sistema Nacional de Saúde.
Pergunto-lhe ainda, Senhor Director Geral, se não é fundamental a confiança que uma pessoa tem em relação a si própria nas suas relações laborais e se a saúde em que se encontra a cavidade oral das pessoas não é um factor determinante.
Dou-lhe a garantia e a minha palavra de honra de que nestas imagens impressionantes que lhe apresento se encontra uma pessoa licenciada, em idade activa, alto quadro de uma das maiores multinacionais e relevantes empresas portuguesas.


Qual é a estética? Qual é a função? Qual é a confiança e integração social de alguém nestas condições? Quais são as inseguranças de uma vida presentes neste “sorriso”? Não sei a resposta a nenhuma destas perguntas.
Mas sei o trabalho em que consiste reabilitar este caso com acesso a técnicas de Implantologia e prótese fixa, ainda numa filosofia de tentar salvar os seus dentes remanescentes, que a natureza lhe deu e que a ética da medicina obriga a proteger.
Senhor Director Geral do Fundo Monetário Internacional, Senhor Doutor Dominique Strauss-Kahn, permita-me que lhe apresente um outro esquema de um plano de tratamento apresentado a um indivíduo que se deslocou à minha consulta. Professor Catedrático de uma conceituada Universidade Portuguesa…com 11 dentes na boca!


Foi Charlie Chaplin quem afirmou "um dia sem sorrir é um dia desperdiçado".
Dias desperdiçados é algo que a nossa economia dispensa. Pergunto-me qual é a perda de produtividade laboral que estas bocas efectivamente representam. Quantas vezes a mão esteve à frente da boca e não na caneta? Mais uma vez, não sei a resposta para estas perguntas.
Porém, sei que o custo de realizar um trabalho desta natureza é elevado e ronda perto dos 20 000 Euros.
Existem, por mera reflexão matemática, pelo menos 2 000 000 de portugueses nesta situação precária. E estou certo que não é o ordenado mínimo que a maior parte destes aufere que lhes permitirá tratar-se convenientemente.
Vossa Excelência mostrou-se disponível a ajudar Portugal através da injecção de capital que permita revitalizar a nossa economia. Já não é a primeira vez que o nosso país atravessa uma crise, não sendo também a primeira vez que o FMI intervém.
Contudo, julgo que existe pelo menos uma lição a retirar. Qualquer que seja o capital investido, tem de o ser feito de forma estratégia e com evidência de objectivos, planos e resultados a curto, médio e longo prazo.
Excelência, peço-lhe, com veemência, invista na boca dos portugueses. Verá que os resultados serão um país menos deprimido, mais feliz consigo próprio e, certamente, mais produtivo.
Num país evoluído, moderno e civilizado exige-se que as bocas estejam tratadas. Se considerarmos que existem 2 000 000 de portugueses a necessitar de um tratamento a rondar este valor, serão necessários 40 000 000 000 (quarenta mil milhões) de Euros. Poderão ainda ser descontados os 25 milhões de Euros que o Estado português, orgulhosamente, afirma que gastou na saúde oral dos portugueses, que continuará a ser apenas aproximadamente menos de metade do que Vossa Excelência se dispõe a injectar na economia e nos bancos portugueses.
Para além de que, ao menos assim, Vossa Excelência tem a garantia de saber onde é que o dinheiro vai parar. E da minha parte asseguro-lhe de que haverá informação permanente do estado do projecto e do investimento e prestação de contas.

Termos em que se requer a V.Exa.:
a)   Na necessidade de resolver o futuro do país o mais rápido que possível, sob pena de os portugueses ficarem perpetuamente sem saúde e sem dentes, peço-lhe que transfira 399 750 000 000  (trezentos e noventa e nove mil setecentos e cinquenta milhões) de Euros para a minha conta com o NIB: 0036 0199 99100045186 02 para que eu possa iniciar este árduo trabalho de pôr Portugal, na prática, a sorrir de novo. E, desta feita, verdadeiramente.

 
Espero Deferimento

Agradecendo antecipadamente a atenção dispensada,
Sem outro assunto de momento,

Subscrevo-me com as mais cordiais saudações europeístas,

Fernando Arrobas da Silva

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Dentes de brancura igual

Numa estrada, por trás das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma criança terna e bela, vestida com essas roupas do campo tão cheias de coqueteria.

O luxo, a indolência e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que parecem feitas de outra massa que não a dos filhos da mediocridade ou da pobreza. Ao lado dela, sobre a grama, um brinquedo esplêndido, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, recoberto de plumas e vidrinhos. Mas a criança não ligava ao seu brinquedo predilecto, antes olhava isto:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra criança, suja, mirrada, fuliginosa, um desses párias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante pátina da miséria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza.

Através dessas grades simbólicas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à rica o seu brinquedo, que a segunda examinava avidamente, como um objecto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balançava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extraído o brinquedo da própria vida.

E as duas crianças riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual.

Charles Baudelaire

sábado, 12 de fevereiro de 2011

São demais os perigos desta vida

Carta de resposta ao meu irmão mais velho:

Querido Fernando, meu irmão mais velho,
É com muito agrado que recebo e leio a tua carta. No meio da tua (e de todos os demais) ausência, as tuas palavras confortam-me. É provavelmente a tua mais sentimental e autêntica carta. E perdoa-me, desde já, se, nesta resposta que te escrevo, começo por falar de mim primeiro.
Sabes bem que prometi a todos, família, amigos, namorada, e, sobretudo a mim próprio, dedicação exclusiva aos estudos, de forma a conseguir transitar este ano e aproximar-me vertiginosamente de terminar o curso.
Foi uma época de exames para não mais esquecer, em que realizei 8 exames no espaço de um mês, repleta de episódios dos quais se destaca um.
Nunca mais me esquecerei do meu primeiro dia de férias de 2007. Dia 27 de Julho de 2007. Por coincidência, defendeste a tua tese e terminaste o teu curso precisamente no dia 26 de Julho de 2010, tendo atingido a alegria e a liberdade também num dia 27. Conheço-te tão bem que não acredito em coincidências na tua vida.
 A muita vontade de ir para o Algarve, aliada à consciência tranquila do dever cumprido, era a mistura certa para umas boas férias. Nesse mesmo dia ao final da tarde, por telefonema do Pai na Faculdade, a pauta já havia sido publicada e as notícias não eram boas.
Fernando José Rosário de Vasconcelos Arrobas da Silva tinha à frente da sua pauta “reprovado”. Desta vez com 9,17. O desconsolo tornou-se infinito, as lágrimas nos olhos também, a vontade de já não ir de férias era maior do que, a de dez minutos antes, de ir. Não havia quem me consolasse.
É verdade, e tu sabes, que acabei por ir de férias na mesma, com uma tristeza escondida debaixo de um falso sorriso que ia de orelha a orelha. Muita gente nem percebeu, mas eu sei bem do que me lembrei todos os dias. Um ano perdido a fazer uma disciplina.
A falta de confiança, as dúvidas de estar no curso certo, tudo era motivo para perturbação e estragar a paz que sentia que merecia após um ano desta dimensão.
Este ano, felizmente, por tratar-se de um ano de transição, em virtude deste esperançado e já com tantos caprichos Processo de Bolonha, a Faculdade, a pedido dos alunos, marcou uma época de exames especial em Setembro. A força era pouca, mas era uma nova oportunidade. E a força recuperaria nas férias.
Supostamente ainda teria mais uma oportunidade, com o estatuto de dirigente associativo, mas este foi-me retirado por ser Presidente de Mesa e não um dos 24 (!) da Direcção. Como tal, apenas teria Setembro.
Não tinham sido os meses de férias a fazer-me perder o que tinha a certeza que sabia. Eu sentia que estava a fazer certo e continuei. Tinha pedido até a uns colegas, um já licenciado e outro que tinha passado em Junho na época normal, para passarem alguns dias comigo para me apontarem erros e ajudarem-me a melhorar, ao que sempre me disseram que era abnegado, tinha vontade e tudo o que fazia era bem feito.
Começou o exame e este decorreu de forma psicologicamente arrasadora. Queria estar concentrado e o Professor observava-me abanando a cabeça com movimentos de “Não”. Senti, durante todo o exame, que o futuro estava traçado.
Foi numa sexta-feira. Pensei que teria pelo menos o fim-de-semana descansado. Mas, uma hora depois do exame, ao sair da Faculdade uma Assistente chamou-me para ir ao Gabinete do Professor. Fui e foi-me confirmado que havia chumbado. Jamais esquecerei a minha figura em pé e a do Professor sentado sem nunca me olhar nos olhos, com a cabeça virada para o chão, simplesmente dizendo que não me poderia passar.
Um dia, quando Bernard Defrance, conhecido Professor de naturalidade francesa de psicopedagogia e de filosofia da educação, se despiu numa sala do ensino secundário com uma intenção essencialmente filosófica, encontrou logo almas caridosas que alertaram a reitoria, o ministério, a imprensa e que fizeram desencadear uma verdadeira caça às bruxas. Mas os professores que não preparam as aulas, que fazem uma avaliação destruidora, que mantêm relações sádicas com certos alunos, que ostentam as suas depressões ou que cada ano fabricam fracassos anunciados, esses professores podem dormir descansados, não vão contra os bons costumes, não fazem senão fazer o seu trabalho.
Relatar o que vivemos pode turvar-nos a perspectiva crítica, mas o meu entendimento, e daí falar disso aqui mesmo, é “antes pelo contrário”.
Nesse dia, pensei que a justificação técnica do que estava errado, para melhorar da próxima, fosse um objectivo da conversa, mas saí da sala apenas com o conhecimento de que “não podia tratar doentes”. Doentes esses que, hoje em dia, tanto admiram e reconhecem as tuas qualidades e o teu trabalho. E, como dizes, de forma apaixonada acerca do trabalho que executas, ser dentista é ser médico, psicólogo, engenheiro, pintor, escultor e arquitecto.
Sabes que dediquei algum tempo a ser representante estudantil. Podia não conseguir mudar o mundo real, mas senti quando aceitei que devia e tinha de aproveitar uma sala cheia para a fazer pensar. Esse disparate característico, onde não se é pago para se interessar pelos problemas dos outros.
Magoou-me mais isto que me aconteceu precisamente porque fiz intervenção em tempo útil, ultrapassando, na altura, inércias e bloqueios que esgotaram as minhas energias, pessoais e institucionais. E quando fui eu que precisei ninguém lá esteve. Estás agora tu.
E chegou a vez de, nesta carta, estar eu agora aí para ti. Chamemos-lhe a teoria das duas faces: a face que avisa e prevê o que vai acontecer. E os ouvidos são surdos. E a face que sofre aquilo para que avisou. E em que as palavras ditas podem apagar-se, mas nunca mais se podem alterar as palavras gravadas.
A palavra paixão é definida como um sentimento forte e sem razão, mas transitório. Para bem e para o mal, verdade te digo, ainda muitas mais situações parecidas virão e na minha companhia te prometo.
Eu consigo entender pela tua forma de escrever que te tornaste demasiado metódico e racional. Mas com o desejo de ser emocional. És assim para te defenderes não sei bem de quê. E de quê, poderás até tu perguntar. Isso eu não sei e provavelmente tu também já não.
És demasiado novo para dizer que a vida te ensinou a ser assim. Dá utilidade a ti mesmo no que a mim me escreveste. Estar de fora é sempre mais fácil, mas, no imediato, antes de naturalmente voltar a errar,  depois de todos os excessos e de todas as ilusões agora é preciso ser prudente. Mas, se me permites, como teu irmão mais novo e inexperiente, dar-te um conselho, deves, sobretudo recusar o arrependimento.

Recusar não é esquecer, não é negar, não é omitir. E muito menos é virar as costas. Recusar é continuar a tentar imaginar outros destinos. Ao início de um sonho, não tem sempre de terminar um final inglório.
Seguido ao conselho, permite-me ainda uma confissão. Toda a gente pode pensar duas vezes nas coisas, mas nem sempre o faz, e eu não sei como, mas também frequentemente o faço.
Em mar calmo, as atribuições de um comandante de navio não são plenamente postas à prova, mas devem estar disponíveis porque a tripulação conta com elas caso surja um acidente crítico. Em mar calmo, o navio quase pode passar sem comandante, enquanto que, se subitamente surge a tempestade, a sobrevivência depende da sua experiência, do seu sangue-frio, da sua capacidade de analisar e decidir numa situação complexa, difícil, que não admite margem para erros.
O futuro ainda demora muito tempo. “Não é por avançarmos os relógios que o futuro chega mais cedo” (Reinhart Koselleck). Mas tu és o meu Comandante e o meu exemplo.só a pouco tp é k comecei a conhecer te e a perceber k afinal n es assimsabes eu acho k es assim pa t defenderes n sei d que E é por isso que considero particularmente engraçada a parte final que me escreves, pois sei que ainda hoje, a todos quanto te perguntam o que se passou naquele dia do fatídico exame, respondes “Fui eu que fiz tudo mal feito.” Nunca dás o sabor, e noutras situações a responsabilidade, aos outros de terem sido eles os responsáveis por algo que surtiu errado. Eu acho que isso é uma característica que edifica o carácter.
Para te entender bem, é preciso ver para além da poeira dos dias que correm e perceber que só por imaginar a verdade, não podemos julgar que a possuímos. Existem muros altos em tudo. Que a mulher seja em princípio alta/ Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. E eu tenho esta tarefa de um ano inteiro de espera angustiante de forma a realizar uma disciplina para que a minha vida possa, simplesmente, continuar.
São vitórias e são desilusões. Como diz Vinicius de Moraes, teu ídolo e que tantas vezes citas e repetes, são demais os perigos desta vida…para quem tem paixão.
Do teu irmão, que igual a ti se quer tornar,
Fernandinho
Biblioteca da Faculdade, 20 de Setembro de 2007

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O insucesso do sucesso

Carta ao meu irmão mais novo :



Querido Fernandinho,

Escrevo-te sentado na biblioteca da minha antiga e tua actual Faculdade. Não falamos continuadamente como se tinha tornado hábito faz dias ou semanas. Senti, no entanto, que te devo, a ti especialmente, por toda a perseverança, força e coragem que tens demonstrado, uma explicação para o meu desaparecimento, que relato nesta carta.
Aprendi, cedo motivado das mudanças de escola e de casa e mais tarde por outras razões, que a vida no que diz respeito à amizade é como um funil. O conta-gotas é permanente. Muitos à tona, poucos no final. Desiludir é fácil. Ser desiludido é duro.
Lembro-me que comecei a entender que te estavas a tornar sério e adulto por um dilema qualquer. Ambos éramos de opiniões diferentes, logo cedo começou a discussão. Se no primeiro momento o que contou foi o impacto da sensação, logo em seguida, sucedeu-se a  necessidade da reflexão. Embora pomo de discórdia, reconheci, em segredo, algumas ideias de verdade e de autenticidade associadas à linguagem ágil e inventiva.
Durante uns tempos, colegas, sondámos opiniões e procurámos convencer-nos e solidarizámo-nos. A pouco e pouco, o que à primeira vista tinha parecido uma divergência tinha convergências: observação e sentido crítico da actualidade e vontade de agitar “o nosso Mundo”.
Hoje, digo com toda a certeza que a nossa amizade não é apenas um sentimento de ordem emocional. Foi, sobretudo, trabalho de sageza.
E é por isso que sei que és a pessoa certa para entender o que te vou contar.
Longe de mim ter pensado que, de repente, me iria voltar a apaixonar. Apaixonar é, para as gerações do século XXI, um termo demasiado forte e seguramente utilizado com muita cautela. Quanto a mim, que sabes que penso sempre duas vezes relativamente a tudo o que me é dito, não tenho receio de o utilizar, pois é num sentido amplamente lato de “empolgamento” e “despertar de um interesse” que andava perdido. Não uma situação desesperante e avassaladora da alma, como a imbecilidade de muitos faz querer parecer.
Vivi dias que, venha uma vida e a outra, não irei esquecer. Vi o sol da Primavera nascer no Inverno e li Vinicius de Moraes, como nunca havia feito com ninguém. É claro que depois uma semana de afastamento bastou para o sentimento incontrolável se reduzir para um lume brando e quase apagado.
Por isso desdobro este  universo recôndito e privado das emoções para uma metáfora que gostava que entendesses.
A esperança que depositaste neste ano lectivo rapidamente ficou gorada ao cantar das Janeiras e do dia de Reis. Ficaste desiludido e magoado. Perguntarmos se foi justo ou injusto não trará nada de diferente. Tens de te manter concentrado nos teus exames, independentemente de não vislumbrar o adiamento de um ano para terminares esse curso ingrato.
Ainda há pouco tempo eu também andei nessa mesma Faculdade e conheces a minha história que aí ficou. Mudou a minha vida. Um processo difícil. Assisti a muita coisa que nunca pensei existir. Sofri repercussões, até que chegou um limite, por coincidência, simultâneo com o último crédito que faltava para terminar.
Felizmente, não me faltou, e a ti também não te falta, família, amigos e pessoas com quem podes contar. Verás, aos poucos, que o mais  engraçado é que justamente quanto maior era a fadiga e a desmotivação, maior era a capacidade e a vontade.
Já tens um bom projecto. Marcado pela responsabilidade social e pela vontade de ocupar o espaço público, entendes a educação para a saúde oral como arte para um País melhor e, por isso, tens é apenas de estar orgulhoso e de estar de consciência tranquila com a tua rectidão. E, para lá chegar, ficar desiludido e sofrer faz parte.
Na minha história, eu próprio não entendo como tão rapidamente me deixei envolver e fiquei tão entusiasmado. “Em tudo se deve retirar algum ensinamento”, dirão os mais espertos. Mas, no fundo, achas que eu, com 27 anos, não tinha já aprendido esta lição de não acreditar em rosas de repente e que não sabia que o que fazia era errado? Mas, no meio do desânimo, do marasmo, das vicissitudes e da displicência do dia-a-dia, fez-me sentir vivo e ver novamente que em mim ainda existia afinal algo animado, ingénuo e verdadeiro.
Farto das minha tácticas racionais que me levaram a tantas conquistas demasiado maquinais e alicerçadas em jogos demasiado pensados, desta vez, dediquei-me demais e muito mais cedo do que devia. A isto chama-se o insucesso do sucesso, ou vice-versa.
Actualmente, ao contrário do que era na tua idade, o que mais me atrai já não é só o sorriso ou os olhos e as pernas bem definidas e esguias. É o respeito, a consideração e a falta de egoísmo. E verás que, em todas as esquinas da vida, isso raramente existe. Às vezes, inclusivamente, até dentro de nós próprios.
Na mágoa que se seguiu, eu também, por momentos, perdi a concentração, dormi mal e desesperei na falta de produção na escrita. Contudo, sabes que nós não somos pessoas de cair e não levantar de imediato. O exemplo disso mesmo é que aqui, de novo, escrevo. E, assim, percebi, subitamente, que, tal como tu, não me posso queixar da vida que tenho, mas que nem tudo tem saído perfeito, como quero. Tempo…
Queria que soubesses o que se passou comigo e a razão da minha ausência e talvez pedir-te desculpa se nalgum momento importante e de desespero não estive aí para ti. E a mensagem que te quero deixar nesta semana que terminarás o teu último exame é esta mesma. Seja na vida, no amor ou no trabalho, o nosso prazer deve concentrar-se não no prazer do que já sabemos fazer, mas sim no prazer do que ainda não sabemos fazer bem feito. E, com altos e baixos, continuar a tentar, na esperança de que um dia será perfeito.

Com o mais fraterno dos abraços,
Do teu irmão mais velho
Fernando

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Receita de mulher


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Vinicius de Moraes

sábado, 29 de janeiro de 2011

In ore oritur sanitas


In ore oritur sanitas (expressão em latim que significa "A saúde começa pela boca")

Por causas...

É engraçada a palavra “causa”. Primeiro, quando procuramos o seu sentido mais imediato no Dicionário encontramos: “agente eficaz que dá existência ao que não existia; motivo, razão. Facto: falar com conhecimento de causa (…)” Se a introduzirmos no site do google.pt só aparece “…Necropsia e mortalidade por causa…”, “…Duas causas principais que explicam…” “…grupos de causas…” e lá na terceira ou quarta página encontramos “Causas nobres”.

 

Infelizmente, e apesar dos esforços para se conseguir a Paz no mundo, o recurso a armas é ainda um meio de resolver diferenças entre as nações, entre os povos e entre grupos étnicos com o cortejo inerente de mortes e sofrimentos.

Os governos dos países mais desenvolvidos já começaram a tirar lições dessas experiências e já procuram dar contributos para a segurança, para o estabelecimento de forças políticas e para os cuidados de saúde.

Hoje em dia, e ao cidadão comum, já é mais fácil também participar em causas. Li no outro dia que enquanto se envia e-mails ou enquanto, simplesmente, se navega pela Internet, que se pode ajudar a combater a malária, que é um dos maiores desafios humanitários em África: o paludismo, actualmente, mata mais de um milhão de pessoas por ano e é a maior causa da mortalidade infantil.
Tudo, quando se quer e se quer fazer bem, são ou podem ser causas.


Contudo, e louváveis sejam todas as formas de participação, quem merece mesmo a congratulação e o respeito por este combate são as entidades e organizações não-governamentais criadas há anos com princípios directores de causas humanitárias. Sob o lema permanente que mais do que sonhar é preciso acreditar e concretizar, passam toda a vida a lutar por causas nobres e desafios humanitários. Os Médicos Sem Fronteiras, organização fundada na década de 1970 e prémio Nobel da Paz de 1999, por exemplo, tem lutado, pondo em risco a vida de milhares de profissionais de saúde (quantos a perdem), por meses e anos a fio, sem reclamar qualquer compensação, para levar assistência às pessoas que vivem nas áreas de conflito. Temos igualmente o nosso exemplo da AMI.

E estas entidades estão em todo o Mundo: Angola, Nigéria, Quénia, República Democrática do Congo, Somália, Sudão, Ruanda, África do Sul, Benin, Burkina Fasso, Malawi, Mali, Moçambique, El Salvador, Guatemala, Haiti, Venezuela, Panamá, Peru, Filipinas, Geórgia, Índia, Arménia, Bangladesh, Macedónia, Montenegro, Roménia, Rússia, Ucrânia, Kosovo, Nepal, Paquistão, Tailândia, Turquemenistão, Uzbequistão, e tantos outros.

Sem governos centrais actuantes há décadas, as crises de fome e desnutrição, a falta de serviços básicos de saúde, como a vacinação, ou a falta de serviços de água e saneamento são os “hábitos” de alguns destes países.

Milhões de deslocados, milhões de refugiados, milhões de sequestrados.

Opressões, conflitos, negligências. A violência é, por exemplo, a principal causa de morte na Colômbia.

Todo um Mundo desconhecido e só com estes relatos é que nos apercebemos do quanto somos privilegiados.

 

Não existe, de facto, nada mais nobre que contribuir para a melhoria das condições de vida das populações vítimas, com testemunho. Ainda bem que existe quem se preocupe com a liberdade como causa, na democracia como causa e no evoluir do Mundo como maior causa. Parabéns a quem as abraça! Nunca é uma vida em vão.



Achei que uma semana depois das eleições presidenciais, seria uma boa altura para elogiar Fernando Nobre e pedir-lhe que não se desvie do seu caminho e continue, por todos, a fazer aquilo que melhor sabe.

Conversas entre... Fernando Pessoa e Agostinho da Silva

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Fernando Pessoa

Trabalhar com esperança

“ (…) É evidente que muito tempo vai passar, é possível que passem séculos sem que nós consigamos dar o salto, fazer uma transição de uma economia de trabalho para uma economia ou para uma vida que seja a do lazer. No fim de contas talvez possamos dividir a vida da Humanidade em três grandes períodos: um primeiro em que o Homem não entendia sequer o que era o trabalho” (…), “uma segunda época, a do trabalho, em que aparecem até metafísicas conducentes e disciplinadoras de tudo isso e o trabalho veio por aí fora e está sendo, já no nosso tempo, uma angustia para muita gente. Aliás, duas espécies de angústia: a daqueles que não trabalham e que se perguntam como é que vão comer, porque até agora só se pode viver apresentando provas de que se trabalhou; e por outro lado a angústia daqueles que trabalham, mas que estão com medo que o trabalho tome conta deles.” (…) “Tenho esperança de que isso acabe e de que se abra então uma terceira idade, em que os homens possam não ter a preocupação do futuro como, provavelmente, não tinham os da primeira época. Ter a ideia de ser o presente o mais belo, a mais bela dádiva que eles poderiam ter, cantá-lo, estudá-lo, meditá-lo, contemplá-lo, de todo o jeito, ao presente que passa e que passa rápido na nossa curtíssima vida e olhar para o futuro que dê plenamente essa capacidade de contemplação e de criação do homem, aproveitando tudo aquilo que foi feito com o sacrifício dos trabalhadores durante séculos e séculos. Provavelmente ainda levará muito tempo para isso, mas tenho esperança, tenho esperança (…)” 


Agostinho da Silva

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Saudades de uma década

No início desta década, no ano 2000, logo no dia 19 de Janeiro desse ano completei 16 Anos. Actualmente, dez anos depois, e pela simples lógica das contas, tenho 26.

Desde a adolescência e dos tempos do liceu, passei para a Faculdade onde me licenciei e hoje em dia já trabalho. Isto representa claramente que se tratou de uma década com especial relevância na minha vida e na preparação do futuro que me avizinha.

Assim, hoje celebro especialmente uma entrada numa nova década, que espero com o mesmo sucesso e alegria, mas não faria sentido fazê-lo sem deixar todas as saudades desta última.


Saudades do liceu e dos amigos de lá


Saudades de estar com a minha Mãe, sempre.




                                           








Tantas saudades dos consecutivos Verões em Vila Nova de Milfontes.


Saudades do meu 2 CV e da minha Dyane


Agora, saudades da sofrida campanha do meu Pai à Câmara de Cascais em 2005
  



Saudades dos primeiros Anos na Faculdade


  

Saudades da Academia

Saudades da minha amiga Filipa, de Coimbra


Saudades de Paris


Saudades de todas as viagens que fiz com o meu Primo, das quais não tenho todas as fotografias: Amesterdam,Funchal, Rio de Janeiro, Moscovo, Madrid, Natal, Helsinquia, Tallin (...)

 

Que saudades (e que desilusão) o Euro 2004. Vi no Estádio Portugal-Rússia, Portugal-Inglaterra, Portugal-Holanda e Portugal-Grécia.


Que saudades deste momento inesquecível ao lado do meu Pai.



Saudades do Benfica Campeão em 2004/2005 e 2009/2010.

Saudades do Chelsea de José Mourinho



Saudades dos últimos anos e dos colegas na Faculdade


  



Saudades da Bella Italia (Interrail)

 

Da Eslovénia
  
De Budapeste

  
Da Inesquecível Croácia


Barcelona vs REAL MADRID





Saudades do meu irmão Cardozo quando era pequenino...

Independentemente de se ter tornado um cão tão bonito e simpático agora que é crescido.
"A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade do carácter e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem" (A. Schopenhauer), li um dia.



Saudades do dia da Queima das Fitas, que assinalava o término da minha licenciatura, no qual consegui reunir mais de 50 pessoas, entre família e amigos, junto a mim.

Que saudades tenho de ver a sala cheia no dia em que defendi a minha monografia de Mestrado: Cuidados de saúde oral em doentes transplantados - uma perspectiva holística em Medicina, orientada pelo Professor Doutor António de Vasconcelos Tavares.


Saudades das magníficas tardes com a minha querida Professora Doutora Maria Alexandre Bettencourt Pires, que sempre acreditou em mim. (Fotografia no dia da sua tese de Doutoramento)



Saudades das incontáveis festas com os meus amigos






Saudades de um mês inteiro de férias na Grécia em 2009


Saudades do primeiro casamento de um amigo. Para mais se seguirem, talvez...




Todos os dias tenho saudades de trabalhar !



Saudades da Clínica Sorria, onde trabalho, com o meu Mestre Renato Souza que todos os dias me ensina.




Saudades de escrever para a Moda e Moda, que ainda agora comecei e que quero continuar.


Saudades de eu e a minha irmã sermos pequeninos outra vez.


Saudades de conhecer e estar com pessoas importantes.




Saudades dos meus amigos da primária, que voltei a reencontrar e não quero perder outra vez.


Saudades do meu Pai, de quem preciso muito.


Saudades do meu Avô, que nunca cheguei a conhecer e que gostava que visse todos os meus êxitos.

Saudades do que não me lembro. Saudades do que não tenho imagens para reproduzir. Sou tão novo e já tenho tantas razões para ter saudades. Só posso sugerir que façam o mesmo. Até porque é meu objectivo atenuar estas saudades simplesmente com novos desafios, para que em 2021 possa de novo realizar tão positivo balanço.

Farei 27 anos no próximo mês de Janeiro, tal como disse. Já sei que me esperam afirmaçõs do género "estás quase a chegar aos 30". Mas o tempo que me levou a juntar estas fotografias, fez-me perceber que se do tanto que fiz nestes últimos anos, metade se voltar a repetir, ainda me falta muito...mesmo muito...

Feliz 2011 !