sábado, 18 de junho de 2011

E via-se lhe um dente podre...

"(...) na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembléia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Madrigal a Lídia: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes de retrós preto cheias da cintilação dos anéis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. "


" - Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo - e via-se-lhe um dente podre."


Eça de Queirós. Singularidades de uma rapariga loura. 

Voltei a ler Os Maias



Nunca se ouviu dizer que um dos maiores defeitos do nosso ensino provém exactamente da atenção dada ao “saber” em detrimento do “conhecer”?

O critério que preside à formação do espírito de um jovem é todo ele dominado por uma intenção instrutiva: primeiro, é preciso passar por uma fase em que cada um de nós recolhe a herança cultural que as gerações que nos precederam foram entesourando para nós. E, seguidamente à erudição, que cada um de nós recebe através dos mestres e dos compêndios (aquela parte que é património comum da humanidade – leis da matemática, regras da gramática, etc. …) deve juntar-se, ao longo da vida, a memória e a inteligência, a sensibilidade e a emoção.

Os Estados Unidos foram o primeiro país do Mundo a pôr em prática o processo de “leituras digeridas” (Reader’s digest). Portugal decidiu arranjar-se à moderna e nos tempos de Ensino Secundário não é conformável a obrigação e a imposição, na disciplina de Português, de ler as obras literárias.
A verdade é que a obrigação e imposição suscitam nos jovens um sentimento de rebelião traduzido numa vontade de fazer precisamente o contrário, conduzindo os alunos a refundirem-se em resumos, fotocópias e apontamentos. A repercussão do disfarce: Não desfrutam da obra e descuram em cultura.
Mais tarde, por vezes longe das salas de aula dos antigos Liceus, encontra-se outro sabor nos livros: anseia-se que se tenha mudado de página e que se tenha usufruído de tudo o que ela pudesse oferecer.

Lê-se com vontade; não com o intuito de dividir uma frase em orações, saber o tempo do verbo, identificar todas as figuras de estilo e “brilhar” em exame.
É mesmo verdade! Voltei a ler Os Maias! Interessei-me e, como se não bastasse, após terminar, documentei-me, investiguei e relembrei toda essa fulgurante época literária que foi o Realismo

Em vez de apreender, aprendi e agora partilho. O realismo foi uma corrente de expressão literária que surgiu em oposição ao movimento literário anterior – o Romantismo. Tratava-se de uma nova atitude perante a literatura e as artes plásticas e que era inspirada na vida real, no quotidiano, na crítica social ao ambiente vivido no seio da burguesia, à denúncia quanto à miséria vivida nos bairros populares e degradados.

Em contraponto com o Romantismo, que se definia como a apoteose do sentimento, exacerbando sentimentalismos utópicos, realçando excessivamente paixões amorosas chegando até a ser, quantas vezes, enfático e “piegas”, o Realismo, como dizia Eça de Queiroz, “é a anatomia do carácter”, era o apontar a dedo a realidade observada. O realismo procurava a realidade autêntica e não a realidade que, entretanto, estava deformada pelo mundo romântico.

Este movimento literário era também um movimento ambicioso. Não se limitando a descrever as realidades concretas do Homem e da sua vida quotidiana, preconizava uma ideia de mudança e de modificação da realidade social. Só que para que tal acontecesse, este movimento encerrava a convicção que para modificar a realidade era necessário descrevê-la com objectividade. Este método decorria do “positivismo” de Augusto Conte, que propunha uma rigorosa observação e experimentação como único caminho para chegar ao conhecimento da realidade.

Um dos grandes expoentes do Realismo foi o saudoso Eça de Queiroz. Eça chamou a si a glória e “ergueu um dos monumentos mais altos de Arte e cultura deste país”: Os Maias.
Os Maias constitui sobretudo uma análise social do quotidiano lisboeta do século XIX e encerra uma forte crítica da realidade vivida então. Num argumento que desde cedo ouvi o meu Pai nas suas ferozes discussões com os outros encarregados de educação dos meus amigos na escola, exemplo bem significativo desta crítica feroz é o facto de ser atribuída à personagem João da Ega (que muitos analistas consideram tratar-se do próprio Eça) a escrita de um ensaio literário As Memórias de um Átomo. Este (João da Ega), ao longo de Os Maias vem, permanentemente, sendo inquirido sobre para quando a conclusão desse livro ou ensaio. Até que mais tarde responde: “Estou à espera que o País aprenda a ler”. Esta frase célebre encerra em si mesma uma tremenda crítica à instrução pública, à educação e ao problema do analfabetismo. Curioso é – e isso é que vem ao caso – o quanto essa crítica é actual.

Incrível, como quando lemos Eça de Queiroz, e sabendo que tudo foi escrito há dois séculos atrás, tudo se mantém tão contemporâneo e, ainda hoje, a política, tal como a sociedade, precisa de uma mudança.
Será que Eça é que era demasiado evoluído ou nós demasiado atrasados?
Talvez os dois. Talvez por isso, em tempos de crise, o devêssemos relembrar mais.

VI - A costa Adriática. Saudades de Lisboa


Mais uma vez fomos cumpridores nos horários e largámos Budapeste à hora decidida por todos. Mais uma longa viagem de comboio nos levaria novamente ao local por onde já tínhamos passado durante um sonho constantemente interrompido numa carruagem. Voltávamos a Zagreb, na Croácia.

A Croácia é um país com uma história recente: república democrática apenas desde 1990, desde a adopção da constituição, depois dos conhecidos anos de guerra que afligiram a Ex – Jugoslávia. É, pois, um país cuja população com marcas profundas desses anos, pois qualquer família tem um Pai, um primo, um tio, um irmão, ora ferido da guerra, ora perdido, ora marcado.

Embora a sua triste história, estes dias na Croácia, porém, julgo que nos surpreenderam pelo seu desenvolvimento turístico e simpatia do povo.
Chegámos a Zagreb na manhã quente do dia 5 de Agosto. Zagreb estava deserta, tal como Lisboa no oitavo mês do ano. Quente e sem pessoas, todas deslocadas para outros lados mais apetecíveis para aproveitarem as suas férias.

E foi assim mesmo que fizemos. De mala às costas, novamente nos deslocámos até ao posto central de venda de bilhetes. Aquele não ia ser decididamente o nosso ponto de paragem.
Zagreb era no Norte da Croácia e nós queríamos era ir a descoberta das praias que tantos livros e pessoas já haviam referenciado. O próximo destino era Zadar, o ponto mais a Oeste da região Dalmácia.

Lembro-me que comecei a escrever este texto enquanto estávamos a apanhar sol em plena Costa Adriática da Croácia, a poucas dias de começar a fase de retorno, que nos levaria de volta a Portugal. Dentro de menos de duas semanas sabia que pensaria: Que saudades desta água tão límpida e quente, que não se compara com a nossa tão fria.
Mas, por outro lado, também tinha saudades da nossa areia, que por aqui não existe. Percebi ali, naquele instante, que é impossível conseguir ter o melhor de dois mundos.

Ainda andámos por Roma, Sul de França, Barcelona. Mas a oportunidade e a inspiração para escrever não chegaram. E escrever a posteriori não dará o mesmo valor ao relato, mas que estou certo que perdurará para sempre nas nossas memórias. Toda a cidade de Roma a pé num dia, o comboio de refugiados até ao Sul de França e a noite na pensão de duas estrelas junto à estação de comboios de Montepellier e as Ramblas.

Estamos agora no último comboio, na última das dez viagens que o nosso bilhete permite.
Faltam poucas horas para chegar a Lisboa e, por fim, deixarmos de nos ver 24 horas sobre 24. Nestas viagens as amizades constroem-se. Porém, já têm de existir de antemão. A estrada, com curvas, contra-curvas, muitas rectas, alguns buracos no alcatrão, já têm de existir. A Europa, os sítios que visitamos, e o Mundo que juntos desejamos, apenas ajuda a aumentá-la, tornando-a maior e com mais paisagens bonitas.

Durante 20 dias, com mais do que cinco alterações no roteiro inicial, estivemos em Espanha, França, Itália, Eslovénia, Hungria e Croácia. Visitámos ao todo 7 países, incluído o Vaticano.

À ida, o mais difícil é partir. À vinda, o mais difícil é chegar. Contudo, julgo que podemos concluir que viajar nos dá tranquilidade, mas também cedo chegam as saudades de Portugal. E lá fora percebemos que em muitas coisas o nosso país não é assim tão mau. Como Eça comunicara em tempo a Ramalho: “Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa.” O melhor de viajar é sentir falta. Viajar nunca é demais. Ir além fronteiras, abrindo a mente. E voltar revitalizado.

Com poucas páginas restantes no meu caderno para escrever, não seria capaz de terminar este roteiro, repleto de textos que sempre quiseram ser curtos, com pouco cheiro, mas alguma água na boca para que quem leia procure a sua própria viagem e saiba escolher os seus companheiros, sem escrever que vos adoro, meus amigos, meus camaradas de descoberta de lugares e de nós próprios, meus irmãos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Investiguem-se

O primeiro (ou o segundo?) princípio de uma Universidade é a busca de conhecimento novo.
O segundo princípio (ou o primeiro?) de uma Universidade é a transmissão do conhecimento, o ensino e a difusão da ciência, da tecnologia, das letras, das artes e a formação de profissionais aptos a trabalhar e que, assim, contribuem para o conhecimento da realidade do País e para o bem-estar dos cidadãos.
Julgo que a dicotomia entre qual é o primeiro e o segundo principio de uma Universidade assenta simplesmente na figura em que estivermos: se somos o estudante ou se somos o professor ou o investigador.
Se formos o estudante o ensino superior serve primariamente a qualificação do cidadão e o primeiro princípio é claramente a busca do conhecimento novo. O caloiro é até visto, nas praxes, como “besta, remeloso, pestilento, desprovido de qualquer tipo de inteligência, mentalmente estéril, etc.”
Mas o professor ou o investigador, por seu turno, qual é o seu primeiro principio?
É importante lembrar que o professor ou investigador já passou pelo tempo de estudante, sendo que o vice-versa não se verifica, necessariamente. No entanto, salvas as excepções, o problema é que muitos professores e investigadores se esquecem que um dia também sentiram na pele as directas do estudo, a antipatia matinal, o serem prejudicados, a falta de oportunidades de observação, a falta do conhecimento que não vem nos livros, etc.
Na altura, deverão ter pensado que nunca seriam assim e que quanto mais cedo um jovem, independentemente de eles não terem conseguido, se pudesse iniciar na pesquisa, melhor. Mas hoje, talvez da proximidade com os laboratórios e com “qualquer coisa mais”, tantos sofreram “mutação”.
É claro que se tem de procurar adoptar as condições ideais e mesmo razoáveis para a estruturação de uma boa Universidade e isso passa necessariamente por políticas de apoio aos cientistas mais activos e dinâmicos e abrindo oportunidades de trabalho aos jovens mais promissores.
Todavia, deve-se formar mais pesquisadores capazes de desenvolver a sua capacidade intelectual com plenitude e com vigor. Deve-se formar mais doutores e profissionais jovens com a imaginação e o entusiasmo característicos da juventude. Deve-se recrutar pessoal discente para a pesquisa, nem que seja só para observar, pois funciona como incitação. E nem nas aulas teóricas há relatos.
As parcas estatísticas não são assintomáticas.
As Universidades não podem ser escolas onde haja só salas, cadeiras e investigação, mas relações entre mestres e discípulos. Não podem ser lugares onde as pessoas vão fazer as suas pesquisas e fabricar os seus currículos, muitas vezes com pouquíssimo interesse pelos jovens que ali entram. Não podem ser os professores com a autoridade, os assistentes com a obediência e os alunos às vezes, injustamente, reprovados.
Um Ensino reformar-se todo ele de repente? Só profundamente. E uma reforma não se faz em três meses, nem em três anos. É muito difícil o Ensino ser bom quando o País não o é.
Não há segredo na constituição de uma boa universidade, não há mistérios indecifráveis. São apenas as condições históricas, políticas e sociais reinantes e o estágio de desenvolvimento a verem-se ao espelho.
Na melhoria das Universidades, tem cada um de olhar ao espelho e gostar daquilo que vê.
Tem de cada um defrontar o Mundo com cada vez mais capacidade de trabalho e não o recurso ao “lado fácil”. Têm de existir recursos e autonomia real de gestão para implementar o mérito, a competência e a vontade de ensinar como princípios.
Mudando as mentalidades chega? Só profundamente. E começa-se pela credibilização das Instituições. O País é melhor com bom Ensino. Thomas Jefferson dizia que a sua glória estava em ter fundado uma Universidade e não em ter sido Presidente dos E.U.A.
Há estudos que dizem que, com o aquecimento global, o planeta estará congelado em 2080. É bom, então, que, rapidamente, se constitua conhecimento novo e a sua transmissão se verifique. Tem mesmo de ser, se não, a longo prazo, de nada adianta estabelecerem-se estruturas uniformes e leis e regimentos e cunhas e regulamentos e comissões e boletins e processos de selecção e esconderem-se apontamentos e programas das disciplinas e horário das aulas e grupos de estudo e falta de entreajuda dos colegas e teses e relatórios e distinção e louvor.

Publicado na revista Aula Magna em 10 Fevereiro 2008

Cancro oral: uma outra Torre de Babel

Normalmente, nestas linhas que tanto prazer me dão escrever, se tem falado sobretudo acerca de dentes, cirurgia, estética e tratamentos actuais que os avanços da tecnologia e da medicina permitiram. Hoje, porém, o objectivo central foi outro. Foi o de prevenir e sensibilizar.
Um total de 1,399,790 novos casos de cancro com 564,830 mortes consequentes era esperado nos Estados Unidos no ano de 2006. Desde 1999, o cancro, quando agregado por idade, parece ter ultrapassado a doença cardíaca como a principal causa de morte para idades inferiores a 85 anos. Actualmente, uma em cada 4 mortes é resultado de cancro.
A doença cancerígena é caracterizada por um crescimento descontrolado e ininterrupto de células neoplásicas aberrantes. As células cancerígenas fazem uma invasão destrutiva dos tecidos através de uma extensão para locais à distância por metástases.
(A Torre de Babel, Pieter Brueghel, 1563, um paradigma do crescimento descontrolado)
Entre os homens, o cancro da próstata (o mais prevalente), dos pulmões, dos brônquios, do cólon e do recto somam um total superior a 56 % de todos os novos cancros diagnosticados. Nas mulheres, o cancro da mama continua a ser o mais prevalente.
No ano de 2005, a American Cancer Society relatou aproximadamente 31 000 cancros da cavidade oral e faringe e 7500 mortos devido a esta doença.
Em média, 95 % dos cancros orais são encontrados em doentes com mais de 40 anos e diagnosticados aos 65.
Durante as últimas 5 décadas a taxa de sobrevivência a cinco anos não tem sofrido alterações. Aproximadamente 47 % dos doentes com carcinoma da cavidade oral ou faringe e 44 % na laringe sucumbem à sua patologia 5 anos após o diagnóstico.
O cancro oral inclui uma variedade de neoplasias malignas que poder ocorrer em qualquer localização anatómica da cavidade oral (língua, mucosa, lábio (…)).
O consumo de álcool e tabaco são os factores de risco para o cancro oral mais frequentes no mundo ocidental e outros incluem o estilo de vida e algumas patologias concomitantes como a sífilis ou situações de imunosupressão.
(Crânio com Cigarro, Van Gogh, 1885)
O plano de tratamento oncológico resulta de uma conferência multidisciplinar de várias especialidades médicas e da aprovação do mesmo pelo doente e/ou familiares. Este é baseado no estadio tumoral, obtido através do exame intra-oral, biopsia e estudos radiológicos e da idade do doente. As modalidades de tratamento consistem na quimioterapia, radioterapia e a cirurgia ablativa do tumor.
A ressecção cirúrgica destas lesões malignas no maxilar superior, pela sua extensão, pode provocar comunicações da cavidade oral com as fossas nasais, que podem comprometer a totalidade do palato duro e mole (“céu da boca”). Isto pode originar refluxo de fluidos e voz nasalada, com algum comprometimento do ponto de vista social.
Relativamente aos tumores da mandíbula, a extensão é variável consoante o tumor. Mas mesmo em estadios pouco avançados, a cirurgia na base da língua tem normalmente um impacto negativo na fala e deglutição.
Além disso, ao contrário de outras regiões do corpo, a cabeça não pode ser escondida e, perante defeitos adquiridos, a modelação estética fica inexoravelmente comprometida.
Na doença oncológica os doentes passam por um processo longo e complexo, que os afectam do ponto de vista psicológico, seja pela afectação psico-social e reacção perante a doença diagnosticada ou perante a perda de estruturas anatómicas que vão influenciar a sua vida normal, nomeadamente na fala, na mastigação e na estética.
Em Portugal registam-se cerca de 1500 casos novos de cancro oral por ano (1200 homens e 300 mulheres).
Uma elevada percentagem de casos de cancro oral são diagnosticados no estadio T3/T4 (uma fase tardia e extremamente avançada) pelo que os esforços que têm vindo a ser feitos para a detecção precoce não têm apresentado os resultados desejados.
O médico dentista tem um papel fulcral nesta patologia, tanto no rastreio, como no diagnóstico primário, aconselhamento em relação aos factores de risco e fazer um acompanhamento do doente durante e após o tratamento.
É fundamental que faça a sua consulta regular de 6 em 6 meses e exija que o seu médico dentista/higienista oral realize o seu rastreio de cancro oral.
Sorria para si: observe o lábio superior e inferior, parte exterior e interior, incluindo as gengivas, o interior das bochechas, a garganta e o palato (céu da boca).
Observe também a língua por cima, nos lados e por baixo, incluindo o pavimento da boca. Palpe ainda suavemente a face e o pescoço, na procura de nódulos aumentados.
Não deixe de julgar estranho se, eventualmente, aparecerem tumefacções, alterações de cor e manchas na cavidade oral que se mantenham por mais de 15 dias e consulte imediatamente o seu médico dentista. Ele realizará o seu diagnóstico ou encaminhará para uma unidade especializada.
Como escreveu um dia Benjamin Franklin: "A pessoa pode adiar, mas o tempo não." A eliminação prévia dos factores de risco, como o álcool e o tabaco, e/ou a detecção do cancro oral de uma forma precoce são critérios fundamentais, tendo em vista, por um lado, prevenir e, por outro, diagnosticar o tumor num estadio menos descontrolado e, desse modo, o tratamento poder contribuir para maiores taxas de sobrevivência dos doentes.
Cancro significa caos e desordem. Desordem no viver, no sentir e no pensar. É uma outra Torre de Babel. Seriamente, previna-se.

domingo, 15 de maio de 2011

Questões pós-aborto

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Esta foi a pergunta feita aos Portugueses em referendo a 11 de Fevereiro 2007. A resposta foi, por maioria, «sim» à despenalização do aborto. Os resultados oficiais contaram com 59,25 por cento dos votos no «sim» e 40,75 por cento no «não» e fora da decisão ficaram 56,39 por cento de eleitores, contribuintes para a abstenção.

Aborto é um conceito lato que implica a interrupção da gravidez, que pode ser espontânea ou provocada.

O debate ético em volta deste tema inicia-se nas questões relacionadas com o princípio da vida: as mulheres têm o direito de interromper voluntariamente a gravidez indesejada? Ou é o estado a proibir? Deve o aborto ser permitido em alguns casos e noutros não? Deve o aborto ser legalizado?

Nas principais linhas de argumentação contra a questão do aborto (qual é a questão do referendo?) vêm o facto de a vida ser inviolável e a vida e o ser humano serem um conjunto. Abortar é assassinar.
Por outro lado, na argumentação a favor da questão do aborto (qual é outra vez a questão do referendo?) julga-se que este deve ser permissível porque a sua proibição leva a consequências indesejadas, a autonomia, o direito moral e a escolha ser respeitada.
Todas são insuficientes, pois a partir de que altura do desenvolvimento embrionário se pode conferir o direito vida de forma completa? Até existir esta resposta, nada será certo.

Ninguém pode afirmar que a liberalização da interrupção voluntária da gravidez constitui uma solução que acarreta consigo mais vantagens do que prejuízos. Mas seria a alavanca do direito penal a única coisa que o impedia?
O “não” alega-se pró-vida, mas o “sim”, só porque é antagónico do “não”, não é propriamente “anti-vida”, é “pró-escolha”.

Mas mais do que tudo as campanhas estão a discutir coisas diferentes: sim à despenalização e não à liberalização. São coisas diferentes. Contra o aborto somos todos.
Ambas as campanhas foram, em certa forma, hipócritas (acho que a pergunta inicial quase ninguém a sabia até se deparar com o boletim de voto no dia do referendo) e a que foi menos foi a que ganhou.


Lembro-me que, por altura das eleições autárquicas em 2005, pós-legislativas, pré-Presidenciais, não se falou uma única vez em aborto. Na América, cada vez que acontecia alguma coisa, George W. Bush falava em Aborto: manobra de distracção.
Eu quero acreditar que, em Portugal, foi antes um grande debate. Mas que ainda não terminou.

A prioridade do nosso país e do nosso Governo tem sido de diminuir drasticamente um défice que tarda em querer atingir níveis considerados admissíveis por todos os economistas e em particular pela União Europeia.

Aos “sacrifícios necessários” já anunciados, e, nesta travagem, na área da Saúde, já se deram todo o tipo de cortes, seguindo-se aí certamente mais medidas económicas.

Ao ter “ganho” o “sim” no referendo do aborto, como lógico, os custos do Serviço Nacional de Saúde aumentaram. O orçamento da saúde é o coberto pelos impostos e constitui o esforço financeiro máximo consentido pela riqueza produzida pelo trabalho dos cidadãos, segundo a política fiscal. Onde se irá buscar então o dinheiro para os custos de aborto?
Há uns anos atrás, um ministro da Saúde Francês chegou a afirmar que o seu Ministério não teria o défice que apresentara no ano anterior se todos os doentes “terminais” assistidos nas UCI (Unidade Cuidados Intensivos) tivessem morrido, oito dias antes, por interrupção dos cuidados. Foi o primeiro sinal de frieza da Economia.

Sem sectarismos, será que a seguir vem mesmo a eutanásia?
A eutanásia “é a morte deliberada e intencional de uma pessoa, a seu pedido, executada por outra pessoa que acolheu o pedido e decidiu dar-lhe satisfação”. Uma prática proibida em Portugal, como se sabe.
Na eutanásia os principais valores em causa são a vida humana. Existe uma grande Argumentação pró-eutanásia: primeiro, porque é a pedido do doente e desde as bases do Principialismo que se deve reger o respeito pela autonomia. Mas até Kant dizia: “a autonomia não pode ser auto destrutiva” e acção médica é o bom controlo dos fármacos, e uma situação deste tipo suscita num profissional de saúde um conflito de deveres entre o dever médico de respeitar a vida e o dever médico de aliviar o sofrimento. O argumento “se a medicina, criou o problema a medicina que o resolva” é fraco, pois os médicos (alguns) são responsáveis por muita coisa, mas não são responsáveis por existirem doenças.

Por seu turno, a argumentação contra eutanásia incide sobretudo no respeito pela vida e proibição de matar. Mas autonomia significa liberdade de escolha e o valor da vida tem de ser entendido em situação.
Todo o sofrimento não pode ser controlado (0 a 20 % continua com dor incontrolável), como tal, argumentar melhores cuidados paliativos, quando Erwing em 1930 já separou o cuidar do curar, levando à desumanização dos cuidados de saúde, também não parece a melhor solução.

Existe, de facto, argumentação contra e a favor da eutanásia e cada uma delas apresenta ainda contra-argumentação, sendo todas elas alicerçadas numa coisa: a aceitação da vida como um bem “auto-disponível” ou não.
De uma coisa, pelo menos até hoje, estamos todos de acordo, o acto de morte não pode ser por simples decisão médica, mas muito menos por simples decisão administrativa. Pois bem, a eutanásia que seja mais um dilema, não mais uma medida económica.

sábado, 14 de maio de 2011

A guerra dos dentes perdidos

Esta semana, pode dizer-se, foi plena de peripécias que se traduziram todas afinal numa conclusão comum. Começou segunda-feira de manhã bem cedo. O meu amigo José Luís Guerreiro (nome fictício, por uma questão de brio e sigilo profissional) tinha mais uma consulta comigo, a propósito de um tratamento de reabilitação oral que tem vindo a realizar, de forma a repor os dentes que perdeu na guerra em África faz mais de 30 anos.
Convidou-me para ir ao café em seguida. Falou-me que anda deprimido e que não entende por que lhe parece que não existe volta a dar. É um sentimento novo, que sabe que não faz sentido, mas que teima em não conseguir debelar.
Por um lado compreendi-o. Eu que sou tão novo ainda, com 27 anos, e sinto que este país me está constantemente a desmotivar, imagino a quem já viu e desiludiu mais e se lhe afiguram menos anos para dar a volta. Mas por outro retorqui que tem de reagir e que a boca nova será uma grande ajuda.
Terça e quarta-feira não deixaram de ser dias normais, ou iguais, entre vindas e desavindas do consultório, do laboratório, às praias do Estoril e a casa almoçar, dormir e passear o cão.
Na quinta-feira, ao final da tarde, fui ouvir uma lição de António Lobo Antunes, a 100ª em virtude de um ciclo de conferências organizado pela Universidade de Lisboa em honra da comemoração dos seus 100 anos.
Sou sincero quando admito que de todos os livros que tenho de António Lobo Antunes em nenhum ainda consegui passar da 2ª página. Leitor assíduo de todo o tipo de livros desde cedo sinto, porém, falta de bagagem, cavalos e carroçaria para o compreender. A anos-luz da sua genialidade é onde me sinto. Contudo, a lição que ouvi foi retumbante, um refrescar de alma e, provavelmente, a lição que ainda me faltava ouvir na Universidade, mesmo depois de me ter licenciado.
2 x 2 = 4 é uma parede, disse ele, citando Dostoevsky.
Voltei a arriscar. Cheguei a casa e abri Ontem não te ouvi em Babilónia. Nada. Fui a uma festa com uns amigos. Deitei-me cedo e acordei tarde, ou melhor, ao contrário.
E sexta-feira, de novo, um veterano da guerra de África a quem dei uma consulta de primeira vez. Logo na radiografia panorâmica eram evidentes os dentes em falta que se prontificou a dizer que tinham sido “arrancados” em plena selva.
Mas era Lobo Antunes que não me saia da cabeça. No final da conferência experimentei cumprimentá-lo e a ideia anterior de figura superior

que é

e antipática

com estranhos, o que aceito e julgo normal, embora nesse aspecto contradiga a característica anterior,

voltou a estar presente,
Tinha tanto de genialidade, como de antipatia.
pensava.
Toca o telefone. A minha Mãe ligava-me da FNAC. Queria uma opinião para um presente que iria oferecer numa festa de anos. Disse o que pensava e desligámos o telefone com um beijinho e um “até logo”.
Liguei-lhe de novo
- Mãe, compra-me as crónicas do Lobo Antunes, por favor.
Acabado de sair o quarto, esgotado o primeiro, trouxe-me o segundo.
E ainda bem. Do índice transportei-me imediatamente para a crónica: Receita para me lerem. Embora de uma densidade que não dá azo a retirar o que seja se não estivermos com concentração, compreendi-o pela primeira vez
mais ou menos
e passei a meta da 2ª página
(a crónica tinha três)
Adormeci. E hoje é sábado.
- Que calor
Vi logo da janela. Passei o dia a banhos, entrando de cabeça na piscina com medo do choque térmico, saindo da água com um sorriso inacreditável. E entre cada salto crónicas, crónicas, crónicas…
“ (…) Acabado o tema principiei a roer a caneta em busca de uma gesta equivalente. Não sei por que misteriosa associação vieram-me à cabeça as minhas aventuras com dentistas, sobretudo o soldado que me arrancou um dente a sangue frio em Angola. Eu, que não bebo, trouxe uma garrafa de uísque a dividir por dois. Para mim como anestésico, para ele a fim de lhe estimular a coragem. Após umas golaças a meias sentei-me numa cadeira de ferro, ordenei
- Vamos a isto
e abri a boca. Nada. Ficou de turquês em punho, imóvel. Estendi-lhe a garrafa
- Mama-me lá um bocado como deve ser.
O líquido desceu até à parte de baixo do rótulo e o soldado, possuído de uma fúria que roçava o delirium-tremens, enfiou-me o joelho na barriga e desatou a puxar garantindo-me
- Seja cego se não há-de sair, seja cego se não há-de sair.
Nunca encontrei olhos tão vermelhos e espumava. O dente saiu de facto, mas saiu-me também a caveira pela boca. Toda a caveira. Talvez não exagere se afirmar que doía um bocadinho. Não existia um nervo em mim que não tilintasse campainhas. Julgo que o pelotão inteiro assistiu à degola, fazendo apostas sobre o número de vértebras dorsais que acompanhariam a caveira. Mil anos que viva que não me esqueço do barulho do molar ao quebrar-se.
Achei o assunto por assim dizer doloroso e pus os dentistas de lado. Vazio horrível: e agora? A infância? Não. A literatura? Nem falar. Política? Esquece. O barulho do molar apareceu-me de novo na lembrança. Graças a Deus por pouco tempo (…) ”
(António Lobo Antunes. A crónica que não consegui escrever. Segundo livro de crónicas. 2002)
Registei imediatamente que nas próximas consultas terei de pesquisar por eventuais raízes residuais daqueles dentes perdidos.
E já tenho tema para o próximo café com o meu amigo. Um homem que sofre dos dentes é sempre um homem amargurado. Nunca um houve um filósofo que conseguisse suportar pacientemente uma dor de dentes, disse William Shakespeare.
No século XXI, e sem guerras, os números relativos aos dentes extraídos dos portugueses continuam a ser impressionantes. E com uma imensidão de consequências na saúde.
Com excepção daqueles sem outra indicação ou alternativa, a extracção de dentes
apenas (porque o mais significativo é não cuidar)
não pode ser vista, nem pelas pessoas, nem pelos médicos dentistas, com leveza e com normalidade. Afinal estamos a falar de higiene, do nosso corpo e da natureza.

Os tratamentos de medicina dentária hoje são de outro nível. De outra exigência. Sob pena de entrarmos na máquina do tempo e sermos todos retratados de novo por Caravaggio, urge que se consiga escrever
Caravaggio, 1607, Palazo Pitti, Florença, Itália

(e fazer)
alguma coisa sobre isso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vida e poesia

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.

E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Obrigado, José Mourinho

Carta aberta a José Mário dos Santos Mourinho Félix :

De Norte a Sul, no Estado, na economia, na moral, o País está desorganizado. Escreveu Eça de Queiroz, nas suas Farpas, não faz assim tanto tempo.
É precisamente na dificuldade e na austeridade que temos de ser criativos e, enquanto uns se afirmam independentes desta pretensa desonestidade dos homens públicos e das instituições diariamente escarnecidas, quando afinal são de todos os partidos em função da circunstância vitoriosa, tu mostras que é nos momentos de dúvida que a consciência do desafio permanente e de confrontarmos os nossos limites é que nos leva ao sucesso.
De ano para ano, de mês para mês, a ruína económica cresce e o desprezo pelas ideias aumenta progressivamente. Pergunta-se o povo se vivemos num momento em que é mais importante o desenvolvimento e o bem do País ou as intrigas ideológicas. Ao invés, tu, em vez de sono, fazes serviços ao bom senso e à competência. Sem medo das críticas dos outros, apontas a dedo, dia por dia, a realidade que observas do mundo que todos vemos, mas que, sem excepção, fingimos não acreditar.
Neste Portugal, em que ninguém quer um trabalho, mas sim um emprego, e que se dá tolerância de ponto ao meio dia da véspera de um fim-de-semana prolongado de quatro dias, os teus funcionários/jogadores trabalham a teu pedido, sempre ao mais alto nível, o tempo que lhes exigires. Eles fazem todos os sacrifícios porque acreditam em ti, que os lideras, e aplicam-se na perspectiva das concretizações vindouras, onde acabam por se ver recompensados.
Neste país em que não se consegue ver televisão, tanta é a desgraça e a insolvência, onde todos estão de pedra e cal na corrupção, ninguém é preso e pede-se conhaque, tu mostras que é possível beber champagne, em média, 3 vezes por ano, e de forma merecida.
A verdade é que todos os dias somos notícia pelo mundo fora, pela negativa, em virtude do nosso comércio que definha, da indústria que enfraquece e do salário que diminui. Em simultâneo, pelo contrário, de ti, que não queres ser cúmplice nesta indiferença universal, todos os dias temos ouvido cantar “melhor Portugal”. Contigo, levamos bandeira e clarim para todo o lado. Nesta jornada da crise económica e política (desde que nasci há 27 anos atrás que julgo que todos os dias ouvi a palavra “crise”), felizmente, não vamos sós afinal.
Exemplo disso mesmo é a recente conferência de imprensa em que falavas da conflitualidade da Taça do “vosso” Rei, como afirmavam os líricos de Barcelona, tão valentemente por ti vencidos. Mesmo sabendo que não existe nenhuma solidariedade entre os nossos concidadãos, orgulhosamente, disseste que eras de um país pequeno, a atravessar graves problemas, mas muito mais unido.
Neste nosso Portugal, em que a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro, também os pseudo-intelectuais gostam prontamente de criticar o ópio que é o futebol. Logo por isso, encheram-se de azedume e cólera os comentários replicados nas páginas da internet que apontavam como indecente a interrupção de uma entrevista de Pedro Santana Lopes para acompanhar a tua chegada a Portugal 3 anos depois da aventura inglesa.
Achas que foi desrespeitoso? No meu entender desrespeitoso é não reconhecermos que muito mais fizeste tu pela imagem do nosso país do que todos esses senhores de viver espiritual e intelectual parado. Faça-se a experiência de te pôr ao lado de um qualquer governante deste país e deixar um conjunto de crianças correr na vossa direcção. Aposto que até o filho desse político te pediria o autógrafo primeiro (e apenas?) a ti.
De quanto em quanto tempo, em Portugal, aparecem indivíduos de extrema qualidade. Várias são as figuras. Desde o Infante D. Henrique ao Engenheiro Edgar Cardoso.
Noutro país qualquer que se queira moderno e civilizado os feitos dos conterrâneos são elogiados, a escola criada é mantida e os discípulos são deixados. “As gerações vêm e vão, mas a Terra mantém-se eternamente firme. O Sol nasce e põe-se e tudo recomeça…” que será perpetuamente na Alemanha e no Japão que os peritos mundiais em química orgânica e tecnologia se encontrarão, respectivamente. Mas desde quando Portugal é uma escola mundial de navegação ou de construção de pontes?
Até nisso já soubeste dar uma lição a Portugal que ainda mingúem retirou. André Villas-Boas, embora agitador e muitas vezes mal criado, com quem finges te dar mal para lhe retirar pressão, é a tua escola. E o primeiro discípulo que deixaste. Pela tua mestria e visão das coisas antes do tempo, por muitos anos, irão portugueses dar cartas no futebol por esse mundo fora. E o futebol é um fenómeno social e de aproximação de povos e culturas muito maior do que muitos julgam ou valorizam.

Sou benfiquista, José. Confesso-te que também fui um dos que, perante a história mal contada pelos jornais, se satisfez por teres saído de treinador do meu clube. Porém, aproximadamente uma década depois, na passada quarta-feira, não hesitei em ver primeiro e muito mais atentamente o Real Madrid - Barcelona do que o Benfica - Porto.
Gostava de te conseguir reproduzir em palavras a festa que fiz junto dos meus amigos com o golo do Cristiano Ronaldo já no prolongamento, mesmo já depois de conhecer o resultado humilhante do meu clube, que supostamente me havia deixado triste e embaraçado.
A globalização, julgo ingenuamente, é isto mesmo. Torcer por quem merece. Esteja em qualquer lugar do Mundo, hoje em dia, a televisão permite torcer por quem faz da luta pela vitória, pelo resultado positivo e por ser o melhor um bem-estar e uma indústria. E esses é que devem ser os exemplos que seguimos. Em tudo.
No passado recente, o meu clube tem-me desiludido. Os pergaminhos de clube com deferência institucional, democrático, natural, espontâneo, humilde e vitorioso, que o meu Pai me ensinou, e em que me revia, estão substituídos por uma cultura com a qual não me identifico. Política de carroçaria e não saber ganhar nem perder que envergonha até as pessoas de bem. Desde a escuridão a que a imagem do Benfica foi submetida ao mundo inteiro, como à auto-ridicularização das palavras a que determinados dirigentes se submetem, cada vez me têm dado vontade de me tornar sócio de um outro clube: sócio do F. C. José Mourinho.
Um clube de sucesso e que o atingiu por ser trabalhador, genuíno, nacional, carismaticamente líder e que defende, de forma intransigente, os seus.
No fundo, não mais do que à imagem do que verdadeiramente são os portugueses. Só precisam de um ligeiro incentivo, que se tem tardado em fazer lograr.

Recebe um abraço de quem gostaria de um dia vir a ter apenas a oportunidade de cumprimentar-te pessoalmente e poder fotografar esse momento para que, um dia, se vier a refazer, em sonho, todo o percurso de vida, me lembrar de que havia, pelo menos, um português que valia a pena.
Obrigado, José Mourinho.
Com as mais cordiais saudações vitoriosas,
Fernando Arrobas da Silva

terça-feira, 19 de abril de 2011

Conversas entre... Guerra Junqueiro e Eça de Queiroz

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, sem um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas (...) "

Guerra Junqueiro

" Este país, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com expedientes. Quando vier a revolução contra os expedientes, o país há-de procurar quem tenha os princípios. Mas quem tem aí princípios? Quem tem aí quatro princípios? Ninguém; têm dívidas, vícios secretos, dentes postiços; mas princípios, nem meio !

Eça de Queiroz

domingo, 10 de abril de 2011

Carta aberta ao Presidente do FMI

Exmo. Senhor Director Geral
DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL
Senhor Doutor Dominique Strauss-Kahn
        
Assunto: Ajuda externa a Portugal – Proposta de Investimento Estratégico

Fernando Arrobas da Silva, Médico Dentista, com a cédula profissional número 07579, licenciado pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, vem, muito respeitosamente, expor e requerer a V.Exa. o seguinte:
Portugal, oficialmente República Portuguesa, como é naturalmente do seu conhecimento, é um país localizado na região sudoeste do continente europeu.
Como escreveu Luís Vaz de Camões a nossa “ocidental praia lusitana” possui uma área total de 92 090 Km2 para um total de, aproximadamente, 10 milhões de habitantes.
Apesar da crise económica assoladora em que nos encontramos presentemente, julgo que os tempos de crise devem sempre ser enfrentados, com rigor, mas também como um espaço para novas oportunidades. Portugal, ao longo da sua história de 872 anos de independência, sempre deu inúmeras provas de superação nos momentos mais complicados.
Portugal é um país de pessoas humildes e trabalhadoras. É um país de grandes mestres de literatura e a língua portuguesa está entre as mais faladas do Mundo. É um país incomparável no seu esplendor e qualidade das suas regiões turísticas. É o país de Eusébio, do Mar (...). É o país do Fado.
É também, contudo, e daí a razão desta missiva que lhe escrevo, um país desdentado.
Segundo alguns dados estatísticos apresentados pela credível Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco), do ano de 2005, um em cada cinco portugueses já perdeu, pelo menos, dez dentes. Enquanto os adolescentes se queixam sobretudo da falta de alinhamento dentário, o principal motivo apontado pelos adultos é a falta de dentes.
Permita-me, Senhor Director Geral, que junte nesta carta uma pequena explicação decorrente da perda de dentes.

Estas imagens ilustram que, com o tempo, a não reabilitação dos espaços correspondentes ao local dos dentes perdidos, e consequente migração dos dentes remanescentes para esses locais, traduz-se num padrão de posicionamento dos dentes alterado, afectando as funções naturais de fonação e mastigação.
Além disso, criam-se determinados espaços extremamente difíceis de higienizar, o que pode originar cáries e doenças gengivais/periodontais nos dentes adjacentes, levando à perda consequente de mais dentes, no sentido da desdentação total.
As principais funções da cavidade oral são a mastigação, a fonação e a estética.
A perda de dentes origina consequências na saúde dos indivíduos a vários níveis. A alimentação ser composta fundamentalmente de comida mais mole e açucarada, em virtude da falta de eficiência mastigatória, pode ter como consequência, por deficiências nutricionais, outro tipo de doenças metabólicas, como a diabetes ou problemas cardiovasculares, que acrescem em grande número os custos do nosso Sistema Nacional de Saúde.
Pergunto-lhe ainda, Senhor Director Geral, se não é fundamental a confiança que uma pessoa tem em relação a si própria nas suas relações laborais e se a saúde em que se encontra a cavidade oral das pessoas não é um factor determinante.
Dou-lhe a garantia e a minha palavra de honra de que nestas imagens impressionantes que lhe apresento se encontra uma pessoa licenciada, em idade activa, alto quadro de uma das maiores multinacionais e relevantes empresas portuguesas.


Qual é a estética? Qual é a função? Qual é a confiança e integração social de alguém nestas condições? Quais são as inseguranças de uma vida presentes neste “sorriso”? Não sei a resposta a nenhuma destas perguntas.
Mas sei o trabalho em que consiste reabilitar este caso com acesso a técnicas de Implantologia e prótese fixa, ainda numa filosofia de tentar salvar os seus dentes remanescentes, que a natureza lhe deu e que a ética da medicina obriga a proteger.
Senhor Director Geral do Fundo Monetário Internacional, Senhor Doutor Dominique Strauss-Kahn, permita-me que lhe apresente um outro esquema de um plano de tratamento apresentado a um indivíduo que se deslocou à minha consulta. Professor Catedrático de uma conceituada Universidade Portuguesa…com 11 dentes na boca!


Foi Charlie Chaplin quem afirmou "um dia sem sorrir é um dia desperdiçado".
Dias desperdiçados é algo que a nossa economia dispensa. Pergunto-me qual é a perda de produtividade laboral que estas bocas efectivamente representam. Quantas vezes a mão esteve à frente da boca e não na caneta? Mais uma vez, não sei a resposta para estas perguntas.
Porém, sei que o custo de realizar um trabalho desta natureza é elevado e ronda perto dos 20 000 Euros.
Existem, por mera reflexão matemática, pelo menos 2 000 000 de portugueses nesta situação precária. E estou certo que não é o ordenado mínimo que a maior parte destes aufere que lhes permitirá tratar-se convenientemente.
Vossa Excelência mostrou-se disponível a ajudar Portugal através da injecção de capital que permita revitalizar a nossa economia. Já não é a primeira vez que o nosso país atravessa uma crise, não sendo também a primeira vez que o FMI intervém.
Contudo, julgo que existe pelo menos uma lição a retirar. Qualquer que seja o capital investido, tem de o ser feito de forma estratégia e com evidência de objectivos, planos e resultados a curto, médio e longo prazo.
Excelência, peço-lhe, com veemência, invista na boca dos portugueses. Verá que os resultados serão um país menos deprimido, mais feliz consigo próprio e, certamente, mais produtivo.
Num país evoluído, moderno e civilizado exige-se que as bocas estejam tratadas. Se considerarmos que existem 2 000 000 de portugueses a necessitar de um tratamento a rondar este valor, serão necessários 40 000 000 000 (quarenta mil milhões) de Euros. Poderão ainda ser descontados os 25 milhões de Euros que o Estado português, orgulhosamente, afirma que gastou na saúde oral dos portugueses, que continuará a ser apenas aproximadamente menos de metade do que Vossa Excelência se dispõe a injectar na economia e nos bancos portugueses.
Para além de que, ao menos assim, Vossa Excelência tem a garantia de saber onde é que o dinheiro vai parar. E da minha parte asseguro-lhe de que haverá informação permanente do estado do projecto e do investimento e prestação de contas.

Termos em que se requer a V.Exa.:
a)   Na necessidade de resolver o futuro do país o mais rápido que possível, sob pena de os portugueses ficarem perpetuamente sem saúde e sem dentes, peço-lhe que transfira 399 750 000 000  (trezentos e noventa e nove mil setecentos e cinquenta milhões) de Euros para a minha conta com o NIB: 0036 0199 99100045186 02 para que eu possa iniciar este árduo trabalho de pôr Portugal, na prática, a sorrir de novo. E, desta feita, verdadeiramente.

 
Espero Deferimento

Agradecendo antecipadamente a atenção dispensada,
Sem outro assunto de momento,

Subscrevo-me com as mais cordiais saudações europeístas,

Fernando Arrobas da Silva