segunda-feira, 23 de maio de 2011

Investiguem-se

O primeiro (ou o segundo?) princípio de uma Universidade é a busca de conhecimento novo.
O segundo princípio (ou o primeiro?) de uma Universidade é a transmissão do conhecimento, o ensino e a difusão da ciência, da tecnologia, das letras, das artes e a formação de profissionais aptos a trabalhar e que, assim, contribuem para o conhecimento da realidade do País e para o bem-estar dos cidadãos.
Julgo que a dicotomia entre qual é o primeiro e o segundo principio de uma Universidade assenta simplesmente na figura em que estivermos: se somos o estudante ou se somos o professor ou o investigador.
Se formos o estudante o ensino superior serve primariamente a qualificação do cidadão e o primeiro princípio é claramente a busca do conhecimento novo. O caloiro é até visto, nas praxes, como “besta, remeloso, pestilento, desprovido de qualquer tipo de inteligência, mentalmente estéril, etc.”
Mas o professor ou o investigador, por seu turno, qual é o seu primeiro principio?
É importante lembrar que o professor ou investigador já passou pelo tempo de estudante, sendo que o vice-versa não se verifica, necessariamente. No entanto, salvas as excepções, o problema é que muitos professores e investigadores se esquecem que um dia também sentiram na pele as directas do estudo, a antipatia matinal, o serem prejudicados, a falta de oportunidades de observação, a falta do conhecimento que não vem nos livros, etc.
Na altura, deverão ter pensado que nunca seriam assim e que quanto mais cedo um jovem, independentemente de eles não terem conseguido, se pudesse iniciar na pesquisa, melhor. Mas hoje, talvez da proximidade com os laboratórios e com “qualquer coisa mais”, tantos sofreram “mutação”.
É claro que se tem de procurar adoptar as condições ideais e mesmo razoáveis para a estruturação de uma boa Universidade e isso passa necessariamente por políticas de apoio aos cientistas mais activos e dinâmicos e abrindo oportunidades de trabalho aos jovens mais promissores.
Todavia, deve-se formar mais pesquisadores capazes de desenvolver a sua capacidade intelectual com plenitude e com vigor. Deve-se formar mais doutores e profissionais jovens com a imaginação e o entusiasmo característicos da juventude. Deve-se recrutar pessoal discente para a pesquisa, nem que seja só para observar, pois funciona como incitação. E nem nas aulas teóricas há relatos.
As parcas estatísticas não são assintomáticas.
As Universidades não podem ser escolas onde haja só salas, cadeiras e investigação, mas relações entre mestres e discípulos. Não podem ser lugares onde as pessoas vão fazer as suas pesquisas e fabricar os seus currículos, muitas vezes com pouquíssimo interesse pelos jovens que ali entram. Não podem ser os professores com a autoridade, os assistentes com a obediência e os alunos às vezes, injustamente, reprovados.
Um Ensino reformar-se todo ele de repente? Só profundamente. E uma reforma não se faz em três meses, nem em três anos. É muito difícil o Ensino ser bom quando o País não o é.
Não há segredo na constituição de uma boa universidade, não há mistérios indecifráveis. São apenas as condições históricas, políticas e sociais reinantes e o estágio de desenvolvimento a verem-se ao espelho.
Na melhoria das Universidades, tem cada um de olhar ao espelho e gostar daquilo que vê.
Tem de cada um defrontar o Mundo com cada vez mais capacidade de trabalho e não o recurso ao “lado fácil”. Têm de existir recursos e autonomia real de gestão para implementar o mérito, a competência e a vontade de ensinar como princípios.
Mudando as mentalidades chega? Só profundamente. E começa-se pela credibilização das Instituições. O País é melhor com bom Ensino. Thomas Jefferson dizia que a sua glória estava em ter fundado uma Universidade e não em ter sido Presidente dos E.U.A.
Há estudos que dizem que, com o aquecimento global, o planeta estará congelado em 2080. É bom, então, que, rapidamente, se constitua conhecimento novo e a sua transmissão se verifique. Tem mesmo de ser, se não, a longo prazo, de nada adianta estabelecerem-se estruturas uniformes e leis e regimentos e cunhas e regulamentos e comissões e boletins e processos de selecção e esconderem-se apontamentos e programas das disciplinas e horário das aulas e grupos de estudo e falta de entreajuda dos colegas e teses e relatórios e distinção e louvor.

Publicado na revista Aula Magna em 10 Fevereiro 2008

Cancro oral: uma outra Torre de Babel

Normalmente, nestas linhas que tanto prazer me dão escrever, se tem falado sobretudo acerca de dentes, cirurgia, estética e tratamentos actuais que os avanços da tecnologia e da medicina permitiram. Hoje, porém, o objectivo central foi outro. Foi o de prevenir e sensibilizar.
Um total de 1,399,790 novos casos de cancro com 564,830 mortes consequentes era esperado nos Estados Unidos no ano de 2006. Desde 1999, o cancro, quando agregado por idade, parece ter ultrapassado a doença cardíaca como a principal causa de morte para idades inferiores a 85 anos. Actualmente, uma em cada 4 mortes é resultado de cancro.
A doença cancerígena é caracterizada por um crescimento descontrolado e ininterrupto de células neoplásicas aberrantes. As células cancerígenas fazem uma invasão destrutiva dos tecidos através de uma extensão para locais à distância por metástases.
(A Torre de Babel, Pieter Brueghel, 1563, um paradigma do crescimento descontrolado)
Entre os homens, o cancro da próstata (o mais prevalente), dos pulmões, dos brônquios, do cólon e do recto somam um total superior a 56 % de todos os novos cancros diagnosticados. Nas mulheres, o cancro da mama continua a ser o mais prevalente.
No ano de 2005, a American Cancer Society relatou aproximadamente 31 000 cancros da cavidade oral e faringe e 7500 mortos devido a esta doença.
Em média, 95 % dos cancros orais são encontrados em doentes com mais de 40 anos e diagnosticados aos 65.
Durante as últimas 5 décadas a taxa de sobrevivência a cinco anos não tem sofrido alterações. Aproximadamente 47 % dos doentes com carcinoma da cavidade oral ou faringe e 44 % na laringe sucumbem à sua patologia 5 anos após o diagnóstico.
O cancro oral inclui uma variedade de neoplasias malignas que poder ocorrer em qualquer localização anatómica da cavidade oral (língua, mucosa, lábio (…)).
O consumo de álcool e tabaco são os factores de risco para o cancro oral mais frequentes no mundo ocidental e outros incluem o estilo de vida e algumas patologias concomitantes como a sífilis ou situações de imunosupressão.
(Crânio com Cigarro, Van Gogh, 1885)
O plano de tratamento oncológico resulta de uma conferência multidisciplinar de várias especialidades médicas e da aprovação do mesmo pelo doente e/ou familiares. Este é baseado no estadio tumoral, obtido através do exame intra-oral, biopsia e estudos radiológicos e da idade do doente. As modalidades de tratamento consistem na quimioterapia, radioterapia e a cirurgia ablativa do tumor.
A ressecção cirúrgica destas lesões malignas no maxilar superior, pela sua extensão, pode provocar comunicações da cavidade oral com as fossas nasais, que podem comprometer a totalidade do palato duro e mole (“céu da boca”). Isto pode originar refluxo de fluidos e voz nasalada, com algum comprometimento do ponto de vista social.
Relativamente aos tumores da mandíbula, a extensão é variável consoante o tumor. Mas mesmo em estadios pouco avançados, a cirurgia na base da língua tem normalmente um impacto negativo na fala e deglutição.
Além disso, ao contrário de outras regiões do corpo, a cabeça não pode ser escondida e, perante defeitos adquiridos, a modelação estética fica inexoravelmente comprometida.
Na doença oncológica os doentes passam por um processo longo e complexo, que os afectam do ponto de vista psicológico, seja pela afectação psico-social e reacção perante a doença diagnosticada ou perante a perda de estruturas anatómicas que vão influenciar a sua vida normal, nomeadamente na fala, na mastigação e na estética.
Em Portugal registam-se cerca de 1500 casos novos de cancro oral por ano (1200 homens e 300 mulheres).
Uma elevada percentagem de casos de cancro oral são diagnosticados no estadio T3/T4 (uma fase tardia e extremamente avançada) pelo que os esforços que têm vindo a ser feitos para a detecção precoce não têm apresentado os resultados desejados.
O médico dentista tem um papel fulcral nesta patologia, tanto no rastreio, como no diagnóstico primário, aconselhamento em relação aos factores de risco e fazer um acompanhamento do doente durante e após o tratamento.
É fundamental que faça a sua consulta regular de 6 em 6 meses e exija que o seu médico dentista/higienista oral realize o seu rastreio de cancro oral.
Sorria para si: observe o lábio superior e inferior, parte exterior e interior, incluindo as gengivas, o interior das bochechas, a garganta e o palato (céu da boca).
Observe também a língua por cima, nos lados e por baixo, incluindo o pavimento da boca. Palpe ainda suavemente a face e o pescoço, na procura de nódulos aumentados.
Não deixe de julgar estranho se, eventualmente, aparecerem tumefacções, alterações de cor e manchas na cavidade oral que se mantenham por mais de 15 dias e consulte imediatamente o seu médico dentista. Ele realizará o seu diagnóstico ou encaminhará para uma unidade especializada.
Como escreveu um dia Benjamin Franklin: "A pessoa pode adiar, mas o tempo não." A eliminação prévia dos factores de risco, como o álcool e o tabaco, e/ou a detecção do cancro oral de uma forma precoce são critérios fundamentais, tendo em vista, por um lado, prevenir e, por outro, diagnosticar o tumor num estadio menos descontrolado e, desse modo, o tratamento poder contribuir para maiores taxas de sobrevivência dos doentes.
Cancro significa caos e desordem. Desordem no viver, no sentir e no pensar. É uma outra Torre de Babel. Seriamente, previna-se.

domingo, 15 de maio de 2011

Questões pós-aborto

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Esta foi a pergunta feita aos Portugueses em referendo a 11 de Fevereiro 2007. A resposta foi, por maioria, «sim» à despenalização do aborto. Os resultados oficiais contaram com 59,25 por cento dos votos no «sim» e 40,75 por cento no «não» e fora da decisão ficaram 56,39 por cento de eleitores, contribuintes para a abstenção.

Aborto é um conceito lato que implica a interrupção da gravidez, que pode ser espontânea ou provocada.

O debate ético em volta deste tema inicia-se nas questões relacionadas com o princípio da vida: as mulheres têm o direito de interromper voluntariamente a gravidez indesejada? Ou é o estado a proibir? Deve o aborto ser permitido em alguns casos e noutros não? Deve o aborto ser legalizado?

Nas principais linhas de argumentação contra a questão do aborto (qual é a questão do referendo?) vêm o facto de a vida ser inviolável e a vida e o ser humano serem um conjunto. Abortar é assassinar.
Por outro lado, na argumentação a favor da questão do aborto (qual é outra vez a questão do referendo?) julga-se que este deve ser permissível porque a sua proibição leva a consequências indesejadas, a autonomia, o direito moral e a escolha ser respeitada.
Todas são insuficientes, pois a partir de que altura do desenvolvimento embrionário se pode conferir o direito vida de forma completa? Até existir esta resposta, nada será certo.

Ninguém pode afirmar que a liberalização da interrupção voluntária da gravidez constitui uma solução que acarreta consigo mais vantagens do que prejuízos. Mas seria a alavanca do direito penal a única coisa que o impedia?
O “não” alega-se pró-vida, mas o “sim”, só porque é antagónico do “não”, não é propriamente “anti-vida”, é “pró-escolha”.

Mas mais do que tudo as campanhas estão a discutir coisas diferentes: sim à despenalização e não à liberalização. São coisas diferentes. Contra o aborto somos todos.
Ambas as campanhas foram, em certa forma, hipócritas (acho que a pergunta inicial quase ninguém a sabia até se deparar com o boletim de voto no dia do referendo) e a que foi menos foi a que ganhou.


Lembro-me que, por altura das eleições autárquicas em 2005, pós-legislativas, pré-Presidenciais, não se falou uma única vez em aborto. Na América, cada vez que acontecia alguma coisa, George W. Bush falava em Aborto: manobra de distracção.
Eu quero acreditar que, em Portugal, foi antes um grande debate. Mas que ainda não terminou.

A prioridade do nosso país e do nosso Governo tem sido de diminuir drasticamente um défice que tarda em querer atingir níveis considerados admissíveis por todos os economistas e em particular pela União Europeia.

Aos “sacrifícios necessários” já anunciados, e, nesta travagem, na área da Saúde, já se deram todo o tipo de cortes, seguindo-se aí certamente mais medidas económicas.

Ao ter “ganho” o “sim” no referendo do aborto, como lógico, os custos do Serviço Nacional de Saúde aumentaram. O orçamento da saúde é o coberto pelos impostos e constitui o esforço financeiro máximo consentido pela riqueza produzida pelo trabalho dos cidadãos, segundo a política fiscal. Onde se irá buscar então o dinheiro para os custos de aborto?
Há uns anos atrás, um ministro da Saúde Francês chegou a afirmar que o seu Ministério não teria o défice que apresentara no ano anterior se todos os doentes “terminais” assistidos nas UCI (Unidade Cuidados Intensivos) tivessem morrido, oito dias antes, por interrupção dos cuidados. Foi o primeiro sinal de frieza da Economia.

Sem sectarismos, será que a seguir vem mesmo a eutanásia?
A eutanásia “é a morte deliberada e intencional de uma pessoa, a seu pedido, executada por outra pessoa que acolheu o pedido e decidiu dar-lhe satisfação”. Uma prática proibida em Portugal, como se sabe.
Na eutanásia os principais valores em causa são a vida humana. Existe uma grande Argumentação pró-eutanásia: primeiro, porque é a pedido do doente e desde as bases do Principialismo que se deve reger o respeito pela autonomia. Mas até Kant dizia: “a autonomia não pode ser auto destrutiva” e acção médica é o bom controlo dos fármacos, e uma situação deste tipo suscita num profissional de saúde um conflito de deveres entre o dever médico de respeitar a vida e o dever médico de aliviar o sofrimento. O argumento “se a medicina, criou o problema a medicina que o resolva” é fraco, pois os médicos (alguns) são responsáveis por muita coisa, mas não são responsáveis por existirem doenças.

Por seu turno, a argumentação contra eutanásia incide sobretudo no respeito pela vida e proibição de matar. Mas autonomia significa liberdade de escolha e o valor da vida tem de ser entendido em situação.
Todo o sofrimento não pode ser controlado (0 a 20 % continua com dor incontrolável), como tal, argumentar melhores cuidados paliativos, quando Erwing em 1930 já separou o cuidar do curar, levando à desumanização dos cuidados de saúde, também não parece a melhor solução.

Existe, de facto, argumentação contra e a favor da eutanásia e cada uma delas apresenta ainda contra-argumentação, sendo todas elas alicerçadas numa coisa: a aceitação da vida como um bem “auto-disponível” ou não.
De uma coisa, pelo menos até hoje, estamos todos de acordo, o acto de morte não pode ser por simples decisão médica, mas muito menos por simples decisão administrativa. Pois bem, a eutanásia que seja mais um dilema, não mais uma medida económica.

sábado, 14 de maio de 2011

A guerra dos dentes perdidos

Esta semana, pode dizer-se, foi plena de peripécias que se traduziram todas afinal numa conclusão comum. Começou segunda-feira de manhã bem cedo. O meu amigo José Luís Guerreiro (nome fictício, por uma questão de brio e sigilo profissional) tinha mais uma consulta comigo, a propósito de um tratamento de reabilitação oral que tem vindo a realizar, de forma a repor os dentes que perdeu na guerra em África faz mais de 30 anos.
Convidou-me para ir ao café em seguida. Falou-me que anda deprimido e que não entende por que lhe parece que não existe volta a dar. É um sentimento novo, que sabe que não faz sentido, mas que teima em não conseguir debelar.
Por um lado compreendi-o. Eu que sou tão novo ainda, com 27 anos, e sinto que este país me está constantemente a desmotivar, imagino a quem já viu e desiludiu mais e se lhe afiguram menos anos para dar a volta. Mas por outro retorqui que tem de reagir e que a boca nova será uma grande ajuda.
Terça e quarta-feira não deixaram de ser dias normais, ou iguais, entre vindas e desavindas do consultório, do laboratório, às praias do Estoril e a casa almoçar, dormir e passear o cão.
Na quinta-feira, ao final da tarde, fui ouvir uma lição de António Lobo Antunes, a 100ª em virtude de um ciclo de conferências organizado pela Universidade de Lisboa em honra da comemoração dos seus 100 anos.
Sou sincero quando admito que de todos os livros que tenho de António Lobo Antunes em nenhum ainda consegui passar da 2ª página. Leitor assíduo de todo o tipo de livros desde cedo sinto, porém, falta de bagagem, cavalos e carroçaria para o compreender. A anos-luz da sua genialidade é onde me sinto. Contudo, a lição que ouvi foi retumbante, um refrescar de alma e, provavelmente, a lição que ainda me faltava ouvir na Universidade, mesmo depois de me ter licenciado.
2 x 2 = 4 é uma parede, disse ele, citando Dostoevsky.
Voltei a arriscar. Cheguei a casa e abri Ontem não te ouvi em Babilónia. Nada. Fui a uma festa com uns amigos. Deitei-me cedo e acordei tarde, ou melhor, ao contrário.
E sexta-feira, de novo, um veterano da guerra de África a quem dei uma consulta de primeira vez. Logo na radiografia panorâmica eram evidentes os dentes em falta que se prontificou a dizer que tinham sido “arrancados” em plena selva.
Mas era Lobo Antunes que não me saia da cabeça. No final da conferência experimentei cumprimentá-lo e a ideia anterior de figura superior

que é

e antipática

com estranhos, o que aceito e julgo normal, embora nesse aspecto contradiga a característica anterior,

voltou a estar presente,
Tinha tanto de genialidade, como de antipatia.
pensava.
Toca o telefone. A minha Mãe ligava-me da FNAC. Queria uma opinião para um presente que iria oferecer numa festa de anos. Disse o que pensava e desligámos o telefone com um beijinho e um “até logo”.
Liguei-lhe de novo
- Mãe, compra-me as crónicas do Lobo Antunes, por favor.
Acabado de sair o quarto, esgotado o primeiro, trouxe-me o segundo.
E ainda bem. Do índice transportei-me imediatamente para a crónica: Receita para me lerem. Embora de uma densidade que não dá azo a retirar o que seja se não estivermos com concentração, compreendi-o pela primeira vez
mais ou menos
e passei a meta da 2ª página
(a crónica tinha três)
Adormeci. E hoje é sábado.
- Que calor
Vi logo da janela. Passei o dia a banhos, entrando de cabeça na piscina com medo do choque térmico, saindo da água com um sorriso inacreditável. E entre cada salto crónicas, crónicas, crónicas…
“ (…) Acabado o tema principiei a roer a caneta em busca de uma gesta equivalente. Não sei por que misteriosa associação vieram-me à cabeça as minhas aventuras com dentistas, sobretudo o soldado que me arrancou um dente a sangue frio em Angola. Eu, que não bebo, trouxe uma garrafa de uísque a dividir por dois. Para mim como anestésico, para ele a fim de lhe estimular a coragem. Após umas golaças a meias sentei-me numa cadeira de ferro, ordenei
- Vamos a isto
e abri a boca. Nada. Ficou de turquês em punho, imóvel. Estendi-lhe a garrafa
- Mama-me lá um bocado como deve ser.
O líquido desceu até à parte de baixo do rótulo e o soldado, possuído de uma fúria que roçava o delirium-tremens, enfiou-me o joelho na barriga e desatou a puxar garantindo-me
- Seja cego se não há-de sair, seja cego se não há-de sair.
Nunca encontrei olhos tão vermelhos e espumava. O dente saiu de facto, mas saiu-me também a caveira pela boca. Toda a caveira. Talvez não exagere se afirmar que doía um bocadinho. Não existia um nervo em mim que não tilintasse campainhas. Julgo que o pelotão inteiro assistiu à degola, fazendo apostas sobre o número de vértebras dorsais que acompanhariam a caveira. Mil anos que viva que não me esqueço do barulho do molar ao quebrar-se.
Achei o assunto por assim dizer doloroso e pus os dentistas de lado. Vazio horrível: e agora? A infância? Não. A literatura? Nem falar. Política? Esquece. O barulho do molar apareceu-me de novo na lembrança. Graças a Deus por pouco tempo (…) ”
(António Lobo Antunes. A crónica que não consegui escrever. Segundo livro de crónicas. 2002)
Registei imediatamente que nas próximas consultas terei de pesquisar por eventuais raízes residuais daqueles dentes perdidos.
E já tenho tema para o próximo café com o meu amigo. Um homem que sofre dos dentes é sempre um homem amargurado. Nunca um houve um filósofo que conseguisse suportar pacientemente uma dor de dentes, disse William Shakespeare.
No século XXI, e sem guerras, os números relativos aos dentes extraídos dos portugueses continuam a ser impressionantes. E com uma imensidão de consequências na saúde.
Com excepção daqueles sem outra indicação ou alternativa, a extracção de dentes
apenas (porque o mais significativo é não cuidar)
não pode ser vista, nem pelas pessoas, nem pelos médicos dentistas, com leveza e com normalidade. Afinal estamos a falar de higiene, do nosso corpo e da natureza.

Os tratamentos de medicina dentária hoje são de outro nível. De outra exigência. Sob pena de entrarmos na máquina do tempo e sermos todos retratados de novo por Caravaggio, urge que se consiga escrever
Caravaggio, 1607, Palazo Pitti, Florença, Itália

(e fazer)
alguma coisa sobre isso.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Vida e poesia

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.

E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Obrigado, José Mourinho

Carta aberta a José Mário dos Santos Mourinho Félix :

De Norte a Sul, no Estado, na economia, na moral, o País está desorganizado. Escreveu Eça de Queiroz, nas suas Farpas, não faz assim tanto tempo.
É precisamente na dificuldade e na austeridade que temos de ser criativos e, enquanto uns se afirmam independentes desta pretensa desonestidade dos homens públicos e das instituições diariamente escarnecidas, quando afinal são de todos os partidos em função da circunstância vitoriosa, tu mostras que é nos momentos de dúvida que a consciência do desafio permanente e de confrontarmos os nossos limites é que nos leva ao sucesso.
De ano para ano, de mês para mês, a ruína económica cresce e o desprezo pelas ideias aumenta progressivamente. Pergunta-se o povo se vivemos num momento em que é mais importante o desenvolvimento e o bem do País ou as intrigas ideológicas. Ao invés, tu, em vez de sono, fazes serviços ao bom senso e à competência. Sem medo das críticas dos outros, apontas a dedo, dia por dia, a realidade que observas do mundo que todos vemos, mas que, sem excepção, fingimos não acreditar.
Neste Portugal, em que ninguém quer um trabalho, mas sim um emprego, e que se dá tolerância de ponto ao meio dia da véspera de um fim-de-semana prolongado de quatro dias, os teus funcionários/jogadores trabalham a teu pedido, sempre ao mais alto nível, o tempo que lhes exigires. Eles fazem todos os sacrifícios porque acreditam em ti, que os lideras, e aplicam-se na perspectiva das concretizações vindouras, onde acabam por se ver recompensados.
Neste país em que não se consegue ver televisão, tanta é a desgraça e a insolvência, onde todos estão de pedra e cal na corrupção, ninguém é preso e pede-se conhaque, tu mostras que é possível beber champagne, em média, 3 vezes por ano, e de forma merecida.
A verdade é que todos os dias somos notícia pelo mundo fora, pela negativa, em virtude do nosso comércio que definha, da indústria que enfraquece e do salário que diminui. Em simultâneo, pelo contrário, de ti, que não queres ser cúmplice nesta indiferença universal, todos os dias temos ouvido cantar “melhor Portugal”. Contigo, levamos bandeira e clarim para todo o lado. Nesta jornada da crise económica e política (desde que nasci há 27 anos atrás que julgo que todos os dias ouvi a palavra “crise”), felizmente, não vamos sós afinal.
Exemplo disso mesmo é a recente conferência de imprensa em que falavas da conflitualidade da Taça do “vosso” Rei, como afirmavam os líricos de Barcelona, tão valentemente por ti vencidos. Mesmo sabendo que não existe nenhuma solidariedade entre os nossos concidadãos, orgulhosamente, disseste que eras de um país pequeno, a atravessar graves problemas, mas muito mais unido.
Neste nosso Portugal, em que a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro, também os pseudo-intelectuais gostam prontamente de criticar o ópio que é o futebol. Logo por isso, encheram-se de azedume e cólera os comentários replicados nas páginas da internet que apontavam como indecente a interrupção de uma entrevista de Pedro Santana Lopes para acompanhar a tua chegada a Portugal 3 anos depois da aventura inglesa.
Achas que foi desrespeitoso? No meu entender desrespeitoso é não reconhecermos que muito mais fizeste tu pela imagem do nosso país do que todos esses senhores de viver espiritual e intelectual parado. Faça-se a experiência de te pôr ao lado de um qualquer governante deste país e deixar um conjunto de crianças correr na vossa direcção. Aposto que até o filho desse político te pediria o autógrafo primeiro (e apenas?) a ti.
De quanto em quanto tempo, em Portugal, aparecem indivíduos de extrema qualidade. Várias são as figuras. Desde o Infante D. Henrique ao Engenheiro Edgar Cardoso.
Noutro país qualquer que se queira moderno e civilizado os feitos dos conterrâneos são elogiados, a escola criada é mantida e os discípulos são deixados. “As gerações vêm e vão, mas a Terra mantém-se eternamente firme. O Sol nasce e põe-se e tudo recomeça…” que será perpetuamente na Alemanha e no Japão que os peritos mundiais em química orgânica e tecnologia se encontrarão, respectivamente. Mas desde quando Portugal é uma escola mundial de navegação ou de construção de pontes?
Até nisso já soubeste dar uma lição a Portugal que ainda mingúem retirou. André Villas-Boas, embora agitador e muitas vezes mal criado, com quem finges te dar mal para lhe retirar pressão, é a tua escola. E o primeiro discípulo que deixaste. Pela tua mestria e visão das coisas antes do tempo, por muitos anos, irão portugueses dar cartas no futebol por esse mundo fora. E o futebol é um fenómeno social e de aproximação de povos e culturas muito maior do que muitos julgam ou valorizam.

Sou benfiquista, José. Confesso-te que também fui um dos que, perante a história mal contada pelos jornais, se satisfez por teres saído de treinador do meu clube. Porém, aproximadamente uma década depois, na passada quarta-feira, não hesitei em ver primeiro e muito mais atentamente o Real Madrid - Barcelona do que o Benfica - Porto.
Gostava de te conseguir reproduzir em palavras a festa que fiz junto dos meus amigos com o golo do Cristiano Ronaldo já no prolongamento, mesmo já depois de conhecer o resultado humilhante do meu clube, que supostamente me havia deixado triste e embaraçado.
A globalização, julgo ingenuamente, é isto mesmo. Torcer por quem merece. Esteja em qualquer lugar do Mundo, hoje em dia, a televisão permite torcer por quem faz da luta pela vitória, pelo resultado positivo e por ser o melhor um bem-estar e uma indústria. E esses é que devem ser os exemplos que seguimos. Em tudo.
No passado recente, o meu clube tem-me desiludido. Os pergaminhos de clube com deferência institucional, democrático, natural, espontâneo, humilde e vitorioso, que o meu Pai me ensinou, e em que me revia, estão substituídos por uma cultura com a qual não me identifico. Política de carroçaria e não saber ganhar nem perder que envergonha até as pessoas de bem. Desde a escuridão a que a imagem do Benfica foi submetida ao mundo inteiro, como à auto-ridicularização das palavras a que determinados dirigentes se submetem, cada vez me têm dado vontade de me tornar sócio de um outro clube: sócio do F. C. José Mourinho.
Um clube de sucesso e que o atingiu por ser trabalhador, genuíno, nacional, carismaticamente líder e que defende, de forma intransigente, os seus.
No fundo, não mais do que à imagem do que verdadeiramente são os portugueses. Só precisam de um ligeiro incentivo, que se tem tardado em fazer lograr.

Recebe um abraço de quem gostaria de um dia vir a ter apenas a oportunidade de cumprimentar-te pessoalmente e poder fotografar esse momento para que, um dia, se vier a refazer, em sonho, todo o percurso de vida, me lembrar de que havia, pelo menos, um português que valia a pena.
Obrigado, José Mourinho.
Com as mais cordiais saudações vitoriosas,
Fernando Arrobas da Silva

terça-feira, 19 de abril de 2011

Conversas entre... Guerra Junqueiro e Eça de Queiroz

" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, sem um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas (...) "

Guerra Junqueiro

" Este país, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com expedientes. Quando vier a revolução contra os expedientes, o país há-de procurar quem tenha os princípios. Mas quem tem aí princípios? Quem tem aí quatro princípios? Ninguém; têm dívidas, vícios secretos, dentes postiços; mas princípios, nem meio !

Eça de Queiroz

domingo, 10 de abril de 2011

Carta aberta ao Presidente do FMI

Exmo. Senhor Director Geral
DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL
Senhor Doutor Dominique Strauss-Kahn
        
Assunto: Ajuda externa a Portugal – Proposta de Investimento Estratégico

Fernando Arrobas da Silva, Médico Dentista, com a cédula profissional número 07579, licenciado pela Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, vem, muito respeitosamente, expor e requerer a V.Exa. o seguinte:
Portugal, oficialmente República Portuguesa, como é naturalmente do seu conhecimento, é um país localizado na região sudoeste do continente europeu.
Como escreveu Luís Vaz de Camões a nossa “ocidental praia lusitana” possui uma área total de 92 090 Km2 para um total de, aproximadamente, 10 milhões de habitantes.
Apesar da crise económica assoladora em que nos encontramos presentemente, julgo que os tempos de crise devem sempre ser enfrentados, com rigor, mas também como um espaço para novas oportunidades. Portugal, ao longo da sua história de 872 anos de independência, sempre deu inúmeras provas de superação nos momentos mais complicados.
Portugal é um país de pessoas humildes e trabalhadoras. É um país de grandes mestres de literatura e a língua portuguesa está entre as mais faladas do Mundo. É um país incomparável no seu esplendor e qualidade das suas regiões turísticas. É o país de Eusébio, do Mar (...). É o país do Fado.
É também, contudo, e daí a razão desta missiva que lhe escrevo, um país desdentado.
Segundo alguns dados estatísticos apresentados pela credível Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco), do ano de 2005, um em cada cinco portugueses já perdeu, pelo menos, dez dentes. Enquanto os adolescentes se queixam sobretudo da falta de alinhamento dentário, o principal motivo apontado pelos adultos é a falta de dentes.
Permita-me, Senhor Director Geral, que junte nesta carta uma pequena explicação decorrente da perda de dentes.

Estas imagens ilustram que, com o tempo, a não reabilitação dos espaços correspondentes ao local dos dentes perdidos, e consequente migração dos dentes remanescentes para esses locais, traduz-se num padrão de posicionamento dos dentes alterado, afectando as funções naturais de fonação e mastigação.
Além disso, criam-se determinados espaços extremamente difíceis de higienizar, o que pode originar cáries e doenças gengivais/periodontais nos dentes adjacentes, levando à perda consequente de mais dentes, no sentido da desdentação total.
As principais funções da cavidade oral são a mastigação, a fonação e a estética.
A perda de dentes origina consequências na saúde dos indivíduos a vários níveis. A alimentação ser composta fundamentalmente de comida mais mole e açucarada, em virtude da falta de eficiência mastigatória, pode ter como consequência, por deficiências nutricionais, outro tipo de doenças metabólicas, como a diabetes ou problemas cardiovasculares, que acrescem em grande número os custos do nosso Sistema Nacional de Saúde.
Pergunto-lhe ainda, Senhor Director Geral, se não é fundamental a confiança que uma pessoa tem em relação a si própria nas suas relações laborais e se a saúde em que se encontra a cavidade oral das pessoas não é um factor determinante.
Dou-lhe a garantia e a minha palavra de honra de que nestas imagens impressionantes que lhe apresento se encontra uma pessoa licenciada, em idade activa, alto quadro de uma das maiores multinacionais e relevantes empresas portuguesas.


Qual é a estética? Qual é a função? Qual é a confiança e integração social de alguém nestas condições? Quais são as inseguranças de uma vida presentes neste “sorriso”? Não sei a resposta a nenhuma destas perguntas.
Mas sei o trabalho em que consiste reabilitar este caso com acesso a técnicas de Implantologia e prótese fixa, ainda numa filosofia de tentar salvar os seus dentes remanescentes, que a natureza lhe deu e que a ética da medicina obriga a proteger.
Senhor Director Geral do Fundo Monetário Internacional, Senhor Doutor Dominique Strauss-Kahn, permita-me que lhe apresente um outro esquema de um plano de tratamento apresentado a um indivíduo que se deslocou à minha consulta. Professor Catedrático de uma conceituada Universidade Portuguesa…com 11 dentes na boca!


Foi Charlie Chaplin quem afirmou "um dia sem sorrir é um dia desperdiçado".
Dias desperdiçados é algo que a nossa economia dispensa. Pergunto-me qual é a perda de produtividade laboral que estas bocas efectivamente representam. Quantas vezes a mão esteve à frente da boca e não na caneta? Mais uma vez, não sei a resposta para estas perguntas.
Porém, sei que o custo de realizar um trabalho desta natureza é elevado e ronda perto dos 20 000 Euros.
Existem, por mera reflexão matemática, pelo menos 2 000 000 de portugueses nesta situação precária. E estou certo que não é o ordenado mínimo que a maior parte destes aufere que lhes permitirá tratar-se convenientemente.
Vossa Excelência mostrou-se disponível a ajudar Portugal através da injecção de capital que permita revitalizar a nossa economia. Já não é a primeira vez que o nosso país atravessa uma crise, não sendo também a primeira vez que o FMI intervém.
Contudo, julgo que existe pelo menos uma lição a retirar. Qualquer que seja o capital investido, tem de o ser feito de forma estratégia e com evidência de objectivos, planos e resultados a curto, médio e longo prazo.
Excelência, peço-lhe, com veemência, invista na boca dos portugueses. Verá que os resultados serão um país menos deprimido, mais feliz consigo próprio e, certamente, mais produtivo.
Num país evoluído, moderno e civilizado exige-se que as bocas estejam tratadas. Se considerarmos que existem 2 000 000 de portugueses a necessitar de um tratamento a rondar este valor, serão necessários 40 000 000 000 (quarenta mil milhões) de Euros. Poderão ainda ser descontados os 25 milhões de Euros que o Estado português, orgulhosamente, afirma que gastou na saúde oral dos portugueses, que continuará a ser apenas aproximadamente menos de metade do que Vossa Excelência se dispõe a injectar na economia e nos bancos portugueses.
Para além de que, ao menos assim, Vossa Excelência tem a garantia de saber onde é que o dinheiro vai parar. E da minha parte asseguro-lhe de que haverá informação permanente do estado do projecto e do investimento e prestação de contas.

Termos em que se requer a V.Exa.:
a)   Na necessidade de resolver o futuro do país o mais rápido que possível, sob pena de os portugueses ficarem perpetuamente sem saúde e sem dentes, peço-lhe que transfira 399 750 000 000  (trezentos e noventa e nove mil setecentos e cinquenta milhões) de Euros para a minha conta com o NIB: 0036 0199 99100045186 02 para que eu possa iniciar este árduo trabalho de pôr Portugal, na prática, a sorrir de novo. E, desta feita, verdadeiramente.

 
Espero Deferimento

Agradecendo antecipadamente a atenção dispensada,
Sem outro assunto de momento,

Subscrevo-me com as mais cordiais saudações europeístas,

Fernando Arrobas da Silva

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Dentes de brancura igual

Numa estrada, por trás das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma criança terna e bela, vestida com essas roupas do campo tão cheias de coqueteria.

O luxo, a indolência e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que parecem feitas de outra massa que não a dos filhos da mediocridade ou da pobreza. Ao lado dela, sobre a grama, um brinquedo esplêndido, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, recoberto de plumas e vidrinhos. Mas a criança não ligava ao seu brinquedo predilecto, antes olhava isto:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra criança, suja, mirrada, fuliginosa, um desses párias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante pátina da miséria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza.

Através dessas grades simbólicas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à rica o seu brinquedo, que a segunda examinava avidamente, como um objecto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balançava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extraído o brinquedo da própria vida.

E as duas crianças riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual.

Charles Baudelaire

sábado, 12 de fevereiro de 2011

São demais os perigos desta vida

Carta de resposta ao meu irmão mais velho:

Querido Fernando, meu irmão mais velho,
É com muito agrado que recebo e leio a tua carta. No meio da tua (e de todos os demais) ausência, as tuas palavras confortam-me. É provavelmente a tua mais sentimental e autêntica carta. E perdoa-me, desde já, se, nesta resposta que te escrevo, começo por falar de mim primeiro.
Sabes bem que prometi a todos, família, amigos, namorada, e, sobretudo a mim próprio, dedicação exclusiva aos estudos, de forma a conseguir transitar este ano e aproximar-me vertiginosamente de terminar o curso.
Foi uma época de exames para não mais esquecer, em que realizei 8 exames no espaço de um mês, repleta de episódios dos quais se destaca um.
Nunca mais me esquecerei do meu primeiro dia de férias de 2007. Dia 27 de Julho de 2007. Por coincidência, defendeste a tua tese e terminaste o teu curso precisamente no dia 26 de Julho de 2010, tendo atingido a alegria e a liberdade também num dia 27. Conheço-te tão bem que não acredito em coincidências na tua vida.
 A muita vontade de ir para o Algarve, aliada à consciência tranquila do dever cumprido, era a mistura certa para umas boas férias. Nesse mesmo dia ao final da tarde, por telefonema do Pai na Faculdade, a pauta já havia sido publicada e as notícias não eram boas.
Fernando José Rosário de Vasconcelos Arrobas da Silva tinha à frente da sua pauta “reprovado”. Desta vez com 9,17. O desconsolo tornou-se infinito, as lágrimas nos olhos também, a vontade de já não ir de férias era maior do que, a de dez minutos antes, de ir. Não havia quem me consolasse.
É verdade, e tu sabes, que acabei por ir de férias na mesma, com uma tristeza escondida debaixo de um falso sorriso que ia de orelha a orelha. Muita gente nem percebeu, mas eu sei bem do que me lembrei todos os dias. Um ano perdido a fazer uma disciplina.
A falta de confiança, as dúvidas de estar no curso certo, tudo era motivo para perturbação e estragar a paz que sentia que merecia após um ano desta dimensão.
Este ano, felizmente, por tratar-se de um ano de transição, em virtude deste esperançado e já com tantos caprichos Processo de Bolonha, a Faculdade, a pedido dos alunos, marcou uma época de exames especial em Setembro. A força era pouca, mas era uma nova oportunidade. E a força recuperaria nas férias.
Supostamente ainda teria mais uma oportunidade, com o estatuto de dirigente associativo, mas este foi-me retirado por ser Presidente de Mesa e não um dos 24 (!) da Direcção. Como tal, apenas teria Setembro.
Não tinham sido os meses de férias a fazer-me perder o que tinha a certeza que sabia. Eu sentia que estava a fazer certo e continuei. Tinha pedido até a uns colegas, um já licenciado e outro que tinha passado em Junho na época normal, para passarem alguns dias comigo para me apontarem erros e ajudarem-me a melhorar, ao que sempre me disseram que era abnegado, tinha vontade e tudo o que fazia era bem feito.
Começou o exame e este decorreu de forma psicologicamente arrasadora. Queria estar concentrado e o Professor observava-me abanando a cabeça com movimentos de “Não”. Senti, durante todo o exame, que o futuro estava traçado.
Foi numa sexta-feira. Pensei que teria pelo menos o fim-de-semana descansado. Mas, uma hora depois do exame, ao sair da Faculdade uma Assistente chamou-me para ir ao Gabinete do Professor. Fui e foi-me confirmado que havia chumbado. Jamais esquecerei a minha figura em pé e a do Professor sentado sem nunca me olhar nos olhos, com a cabeça virada para o chão, simplesmente dizendo que não me poderia passar.
Um dia, quando Bernard Defrance, conhecido Professor de naturalidade francesa de psicopedagogia e de filosofia da educação, se despiu numa sala do ensino secundário com uma intenção essencialmente filosófica, encontrou logo almas caridosas que alertaram a reitoria, o ministério, a imprensa e que fizeram desencadear uma verdadeira caça às bruxas. Mas os professores que não preparam as aulas, que fazem uma avaliação destruidora, que mantêm relações sádicas com certos alunos, que ostentam as suas depressões ou que cada ano fabricam fracassos anunciados, esses professores podem dormir descansados, não vão contra os bons costumes, não fazem senão fazer o seu trabalho.
Relatar o que vivemos pode turvar-nos a perspectiva crítica, mas o meu entendimento, e daí falar disso aqui mesmo, é “antes pelo contrário”.
Nesse dia, pensei que a justificação técnica do que estava errado, para melhorar da próxima, fosse um objectivo da conversa, mas saí da sala apenas com o conhecimento de que “não podia tratar doentes”. Doentes esses que, hoje em dia, tanto admiram e reconhecem as tuas qualidades e o teu trabalho. E, como dizes, de forma apaixonada acerca do trabalho que executas, ser dentista é ser médico, psicólogo, engenheiro, pintor, escultor e arquitecto.
Sabes que dediquei algum tempo a ser representante estudantil. Podia não conseguir mudar o mundo real, mas senti quando aceitei que devia e tinha de aproveitar uma sala cheia para a fazer pensar. Esse disparate característico, onde não se é pago para se interessar pelos problemas dos outros.
Magoou-me mais isto que me aconteceu precisamente porque fiz intervenção em tempo útil, ultrapassando, na altura, inércias e bloqueios que esgotaram as minhas energias, pessoais e institucionais. E quando fui eu que precisei ninguém lá esteve. Estás agora tu.
E chegou a vez de, nesta carta, estar eu agora aí para ti. Chamemos-lhe a teoria das duas faces: a face que avisa e prevê o que vai acontecer. E os ouvidos são surdos. E a face que sofre aquilo para que avisou. E em que as palavras ditas podem apagar-se, mas nunca mais se podem alterar as palavras gravadas.
A palavra paixão é definida como um sentimento forte e sem razão, mas transitório. Para bem e para o mal, verdade te digo, ainda muitas mais situações parecidas virão e na minha companhia te prometo.
Eu consigo entender pela tua forma de escrever que te tornaste demasiado metódico e racional. Mas com o desejo de ser emocional. És assim para te defenderes não sei bem de quê. E de quê, poderás até tu perguntar. Isso eu não sei e provavelmente tu também já não.
És demasiado novo para dizer que a vida te ensinou a ser assim. Dá utilidade a ti mesmo no que a mim me escreveste. Estar de fora é sempre mais fácil, mas, no imediato, antes de naturalmente voltar a errar,  depois de todos os excessos e de todas as ilusões agora é preciso ser prudente. Mas, se me permites, como teu irmão mais novo e inexperiente, dar-te um conselho, deves, sobretudo recusar o arrependimento.

Recusar não é esquecer, não é negar, não é omitir. E muito menos é virar as costas. Recusar é continuar a tentar imaginar outros destinos. Ao início de um sonho, não tem sempre de terminar um final inglório.
Seguido ao conselho, permite-me ainda uma confissão. Toda a gente pode pensar duas vezes nas coisas, mas nem sempre o faz, e eu não sei como, mas também frequentemente o faço.
Em mar calmo, as atribuições de um comandante de navio não são plenamente postas à prova, mas devem estar disponíveis porque a tripulação conta com elas caso surja um acidente crítico. Em mar calmo, o navio quase pode passar sem comandante, enquanto que, se subitamente surge a tempestade, a sobrevivência depende da sua experiência, do seu sangue-frio, da sua capacidade de analisar e decidir numa situação complexa, difícil, que não admite margem para erros.
O futuro ainda demora muito tempo. “Não é por avançarmos os relógios que o futuro chega mais cedo” (Reinhart Koselleck). Mas tu és o meu Comandante e o meu exemplo.só a pouco tp é k comecei a conhecer te e a perceber k afinal n es assimsabes eu acho k es assim pa t defenderes n sei d que E é por isso que considero particularmente engraçada a parte final que me escreves, pois sei que ainda hoje, a todos quanto te perguntam o que se passou naquele dia do fatídico exame, respondes “Fui eu que fiz tudo mal feito.” Nunca dás o sabor, e noutras situações a responsabilidade, aos outros de terem sido eles os responsáveis por algo que surtiu errado. Eu acho que isso é uma característica que edifica o carácter.
Para te entender bem, é preciso ver para além da poeira dos dias que correm e perceber que só por imaginar a verdade, não podemos julgar que a possuímos. Existem muros altos em tudo. Que a mulher seja em princípio alta/ Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. E eu tenho esta tarefa de um ano inteiro de espera angustiante de forma a realizar uma disciplina para que a minha vida possa, simplesmente, continuar.
São vitórias e são desilusões. Como diz Vinicius de Moraes, teu ídolo e que tantas vezes citas e repetes, são demais os perigos desta vida…para quem tem paixão.
Do teu irmão, que igual a ti se quer tornar,
Fernandinho
Biblioteca da Faculdade, 20 de Setembro de 2007