Nunca admirei tanto um atleta como admirei José Águas. Para quê, portanto, ir ao futebol se ele já não se encontra no estádio?
Há mais de trinta anos que não assisto a um jogo de futebol. Não conheço os estádios novos, vejo, às vezes, um bocadinho na televisão. Mas entre os dez e os vinte anos não falhava um jogo do Benfica. E não falhei enquanto Águas jogou. Claro que não era apenas Águas: era Costa Pereira, Germano, Ângelo, Simões, Eusébio, Cavém, o grande Mário Esteves Coluna que Otto Glória considerava o melhor jogador português, outros mais artistas que jogadores, como José Augusto, por exemplo, a todos estou grato pela beleza e a alegria que me deram, porém nunca admirei tanto um atleta como admirei José Águas. Para quê, portanto, ir ao futebol se ele já não se encontra no estádio? Era a elegância, a inteligência, a integridade, o talento, e ao pensar em escrever o meu desejo era ser o Águas da literatura. Vi Pelé, Didi, Nilton Santos, Puskas, Di Stefano, Santamaria, tantos outros génios, no tempo em que o futebol não era ainda uma indústria nem os jogadores funcionários competentes, comandados por esse horror a que chamam técnicos: era pura criação, uma actividade eufórica, uma magia cinzelada, uma nascente de prazer, uma inspiração, um entusiasmo. Águas foi tudo isso e, muito novo, ganhou o respeito dos colegas, dos adversários, dos jornalistas da época, que os havia de grande qualidade, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Aurélio Márcio, Homero Serpa, tantos outros. Não jogava futebol: criava futebol, respirava futebol, inventava futebol, e teria sido um privilégio para mim conhecê-lo. Não para falar com ele, para o ouvir. A sua beleza física invulgar distinguia-o de todos os outros, a forma de se mover em campo era única, a autoridade sobre os companheiros natural e humilde. Os miúdos que iam comigo à bola chamavam-lhe senhor Águas, sem sonharem que era desse modo que Simões e Eusébio o tratavam, como tratavam Coluna.
Senhor Águas, senhor Coluna. Reconhecíamo-lo, do alto do terceiro anel, no estádio de então, onde, de tão longe, os jogadores minúsculos, pelo modo de correr, se deslocar no campo, passar, rematar, reconhecíamo-lo pelos seus golpes de cabeça, inimitáveis, pelo sentido da ocupação do espaço, pela simplificada geometria do seu futebol. Não tinha a garra de Ângelo ou Cavém, a força de Coluna, o gigantesco talento de Eusébio, o poder do drible de Simões, a velocidade de José Augusto: era uma espécie de rei sereno e eficaz, um aristocrata perfeito. Até a andar os olhos ficavam presos nele, na harmonia dos gestos, no modo de ajeitar bola, e eu, criança de dez anos ou adolescente de quinze, pensava tenho de trabalhar mais esta página, ainda não chego aos calcanhares de José Águas. Escrever como ele jogava, com a mesma subtileza e a mesma eficácia. Escrever como a equipa do Benfica, umas vezes à Ângelo, outras à Germano, outras à Coluna, e finalizar à Águas. Nunca deve ter ouvido falar em mim nem podia adivinhar que um garoto qualquer o tomava não apenas como mestre de futebol mas como mestre de escrita. Só, mais tarde, certos saxofonistas de jazz, Bird, Coltrane, Webster, Coleman, Hodges, alguns mais, tiveram, sobre o meu trabalho, influência semelhante. Mas Águas foi o meu primeiro e indisputado professor: escreve como ele joga, meu estúpido, aprende a escrever como ele jogava. Como morava em Benfica via-o, às vezes, no autocarro do clube e ficava, pasmado de admiração, a fitá-lo. Isto lembra-me o meu irmão Nuno chegando a casa de dedo no ar
- Toquei no Eusébio, toquei no Eusébio
como provavelmente, eu o faria, porque na infância e na adolescência o futebol era, para além de uma aprendizagem do mundo, um prazer infinito. A cor dos equipamentos
(o meu amigo Artur Semedo:
- Não sou um homem às riscas, sou homem de uma cor só)
a entrada em campo, o hino, tudo isto me exaltava e fazia feliz. E as vitórias, comemoradas em Benfica com bebedeiras eufóricas. Uma das minhas glórias secretas, confesso-o agora, consiste em ter visto a fotografia do meu pai no balneário do hóquei em patins do Benfica, de ele ter estado no Campeonato da Europa de 1936, em Estugarda, com vinte ou vinte e um anos, e de brincarmos com uma caixa de lata cheia de medalhas, a que o meu pai não dava importância alguma e eu considerava inestimáveis. Há pouco, a minha mãe
- O que faço eu a isto?
exibindo-me uma espécie de troféu ou de placas num estojo, que alguns anos antes de morrer a Federação de Patinagem lhe entregou, juntamente com outras antigas glórias, e que me recordo de o meu pai, que não saía, ir receber com satisfação secreta. Mas, claro, eu era só filho do Lobo Antunes, não era filho do Águas, e ainda sei medir as distâncias. Portanto, o que vou eu fazer a um campo de futebol se ele já não joga? Seguir os funcionários competentes de um negócio? Assistir ao bailado dos técnicos? Ver a fantasia substituída pela sofreguidão, a ambição pela avidez, o amor ao clube pela violência idiota? Claro que continuo a querer que o Benfica ganhe. Claro que sou, como em tudo o resto, parcial, sectário, por vezes sem bom senso algum. Mas há séculos que não sofro com as derrotas e, sobretudo, não choro lágrimas sinceras com elas: estou-me nas tintas. Contudo voltaria a trotar, radiante, para assistir à entrada em campo de Costa Pereira, Mário João, Germano, Ângelo, Cavém, Cruz, José Augusto, Eusébio, Águas, Coluna e Simões, a agradecer-lhes o facto de me terem, durante anos e anos, colorido a existência. E talvez no fim do jogo, postado junto ao autocarro, quando os jogadores saíssem do balneário, o senhor Águas me apertasse a mão.
António Lobo Antunes
in Visão
O Chile, apelidado por muitos de país de políticos e escritores, foi ímpar na proliferação de intelectuais através das suas tertúlias. Imaginando-nos sentados naquelas duas cadeiras, passemos tardes em esplanadas e cafés cheios em Valparaíso, cidade magnífica do Chile, convivendo e relembrando grandes intelectuais e senhores do Mundo, declamando poemas ou literatura, contando histórias e escrevendo... na procura de que se faça luz nas nossas cabeças e se criem novos ideais. Sentem-se aí.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
O senhor Águas - António Lobo Antunes
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Reabilitação oral: o mistério do bigode chinês
Retrato, do latim retrahere, que significa copiar, é a representação de uma figura individual ou de um grupo elaborada a partir de um modelo.
A difusão da retratística acompanhou-se dos anseios da corte e da burguesia urbana em projectar as suas imagens, na vida pública e privada. Se, no passado, a pintura era a forma encontrada de retratar pessoas e situações, nestes séculos mais recentes a fotografia veio “substituir” as obras dos grandes artistas.
O principal objectivo da reabilitação oral é a recuperação normal das funções de mastigação, fonação e estética. É deveras interessante o valor que as pessoas passam a dar estes actos, tão inatos e naturais, apenas quando estão perdidos.
As pessoas deixaram de ir ao dentista para tratar dos dentes. Passaram a ir ao dentista para tratar de si. E a Medicina Dentária actual exige o tratamento de um sistema que inclui a face, a gengiva, os lábios, os dentes, os maxilares e vários músculos, ligamentos e articulações.
Reabilitação, enquanto definição, é um processo gradual de restabelecimento das funções perdidas aumentando, assim, a qualidade de vida de cada um de nós. Deste modo, não é fácil (nem correcto) realizar uma reabilitação oral num curto de espaço de tempo.
Cada caso é diferente e merece ser estudado ao mais ínfimo pormenor. Com o objectivo de que, a cada sessão, o paciente fique melhor do que chegou, o diagnóstico e plano de tratamento devem ser bem considerados e desenhados.
Acontece que as consequências de alguém que perdeu os dentes são, para além da reabsorção óssea dos maxilares e das alterações da coordenação muscular e naturais influências negativas na mastigação e na fala, consideráveis modificações na estética facial do indivíduo. E, com isto, acrescem os factores psicológicos de tristeza em frente ao espelho, insegurança e falta de confiança decorrentes.
Leonardo da Vinci é considerado, por muitos, como o maior génio da história.
Foi pintor, arquitecto, engenheiro, cientista e escultor do Renascimento e são impressionantes os seus estudos em ciências e as criações de engenharia que realizou, que se encontram registadas em cadernos que incluem perto de 13.000 páginas de notas e desenhos que fundem arte e ciência. É raríssimo que a história da cultura ocidental ofereça um tal casamento entre ciência e arte.
Os seus trabalhos artísticos são reconhecidos, onde se incluem obras como A última ceia ou, para citar talvez o mais conhecido, A Mona Lisa.
Entre diversas teorias, existem algumas que apontam essa obra como um auto-retrato de Leonardo, mas com feições femininas, outras o amante que ele levou consigo para Paris quando foi convidado da corte de François Iér, explicando assim o enigmático sorriso.
Entre diversas teorias, existem algumas que apontam essa obra como um auto-retrato de Leonardo, mas com feições femininas, outras o amante que ele levou consigo para Paris quando foi convidado da corte de François Iér, explicando assim o enigmático sorriso.
No conjunto de retratos elaborados por Leonardo da Vinci, os traços faciais descritos como característicos de quem perde os dentes são notórios. E devemos ter em conta que se tratava de uma época pródiga em perda de dentes, já que ainda não existiam os actuais conhecimentos.
Aliás, os seus reconhecidos trabalhos de Anatomia mostram-nos que a perda de dentes à época era uma realidade e será que se pode, inclusivamente, suspeitar se, no seu último auto-retrato, o próprio não padeceria de tal condição?
Note-se a marcação dos sulcos naso-genianos, a ausência do filtro labial, as comissuras labiais invertidas, os lábios finos, o terço inferior da face diminuído e um prognatismo relativo, embora a barba ajude a disfarçar.
O terço inferior da face, ao longo dos anos e com o aumento da idade, pode ser exposto a diversas modificações. O aumento do laxismo dos músculos deixa marcas na face, origina rugas e afecta a posição da boca.
Esta situação, juntamente com patologias dentárias, nomeadamente desgaste dentário ou perda dos dentes, sobretudo os dentes posteriores, pode originar um decréscimo da altura da face.
Assim, os tecidos em volta da boca afundam, o desenho do lábio desaparece, as rugas acentuam-se e a aparência facial envelhece. Numa linguagem simplificada, a perda de dentes “junta a ponta do queixo à ponta do nariz”.
A restauração da altura facial e dos tecidos moles é um passo fundamental em qualquer pessoa que procura tratamentos de estética do rosto. Apenas a reabilitação oral conduz ao plano correcto a que melhor respondem os requisitos estéticos e funcionais da face.
O mistério do bigode chinês (o acentuar das rugas naso-genianas) é um dos principais motivos de consulta que as pessoas procuram nas clínicas de cirurgia plástica.
Contudo, a medicina dentária e a cirurgia plástica facial não podem ser consideradas especialidades separadas. As exigências multidisciplinares actuais exigem que andem de mãos dadas. Todos os tratamentos de rejuvenescimento facial devem incluir a procura de uma proporção dentária adequada e uma articulação mandibular perfeita.
Apenas o diagnóstico completo é o mais correcto. Antes de se equacionar tratamentos de rejuvenescimento, há que diagnosticar os sintomas e seleccionar as técnicas adequadas para os atenuar.
Ainda não foi hoje que o Sorriso de Mona Lisa se desvendou. Mas Da Vinci mais uma vez nos ensinou: “A pintura deve parecer uma coisa natural vista num grande espelho.” Se, no nosso dia-a-dia, procurarmos elevar o nosso trabalho à arte, a boca e o sorriso natural tornam-se no centro da face e da confiança de todas pessoas.
Fernando Arrobas
Publicado na Revista Moda & Moda . Nº 104 . Verão 2011
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Arte,
Reabilitação Oral e Estética,
Revista Moda e Moda
domingo, 3 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Viajar, voar e aterrar
Mentalidades
Fotografia, nos nossos Fins de Tarde
sábado, 18 de junho de 2011
E via-se lhe um dente podre...
"(...) na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembléia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Madrigal a Lídia: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes de retrós preto cheias da cintilação dos anéis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. "
" - Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo - e via-se-lhe um dente podre."
" - Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo - e via-se-lhe um dente podre."
Eça de Queirós. Singularidades de uma rapariga loura.
Voltei a ler Os Maias
Nunca se ouviu dizer que um dos maiores defeitos do nosso ensino provém exactamente da atenção dada ao “saber” em detrimento do “conhecer”?
O critério que preside à formação do espírito de um jovem é todo ele dominado por uma intenção instrutiva: primeiro, é preciso passar por uma fase em que cada um de nós recolhe a herança cultural que as gerações que nos precederam foram entesourando para nós. E, seguidamente à erudição, que cada um de nós recebe através dos mestres e dos compêndios (aquela parte que é património comum da humanidade – leis da matemática, regras da gramática, etc. …) deve juntar-se, ao longo da vida, a memória e a inteligência, a sensibilidade e a emoção.
Os Estados Unidos foram o primeiro país do Mundo a pôr em prática o processo de “leituras digeridas” (Reader’s digest). Portugal decidiu arranjar-se à moderna e nos tempos de Ensino Secundário não é conformável a obrigação e a imposição, na disciplina de Português, de ler as obras literárias.
A verdade é que a obrigação e imposição suscitam nos jovens um sentimento de rebelião traduzido numa vontade de fazer precisamente o contrário, conduzindo os alunos a refundirem-se em resumos, fotocópias e apontamentos. A repercussão do disfarce: Não desfrutam da obra e descuram em cultura.
Mais tarde, por vezes longe das salas de aula dos antigos Liceus, encontra-se outro sabor nos livros: anseia-se que se tenha mudado de página e que se tenha usufruído de tudo o que ela pudesse oferecer.
Lê-se com vontade; não com o intuito de dividir uma frase em orações, saber o tempo do verbo, identificar todas as figuras de estilo e “brilhar” em exame.
É mesmo verdade! Voltei a ler Os Maias! Interessei-me e, como se não bastasse, após terminar, documentei-me, investiguei e relembrei toda essa fulgurante época literária que foi o Realismo
Em vez de apreender, aprendi e agora partilho. O realismo foi uma corrente de expressão literária que surgiu em oposição ao movimento literário anterior – o Romantismo. Tratava-se de uma nova atitude perante a literatura e as artes plásticas e que era inspirada na vida real, no quotidiano, na crítica social ao ambiente vivido no seio da burguesia, à denúncia quanto à miséria vivida nos bairros populares e degradados.
Em contraponto com o Romantismo, que se definia como a apoteose do sentimento, exacerbando sentimentalismos utópicos, realçando excessivamente paixões amorosas chegando até a ser, quantas vezes, enfático e “piegas”, o Realismo, como dizia Eça de Queiroz, “é a anatomia do carácter”, era o apontar a dedo a realidade observada. O realismo procurava a realidade autêntica e não a realidade que, entretanto, estava deformada pelo mundo romântico.
Este movimento literário era também um movimento ambicioso. Não se limitando a descrever as realidades concretas do Homem e da sua vida quotidiana, preconizava uma ideia de mudança e de modificação da realidade social. Só que para que tal acontecesse, este movimento encerrava a convicção que para modificar a realidade era necessário descrevê-la com objectividade. Este método decorria do “positivismo” de Augusto Conte, que propunha uma rigorosa observação e experimentação como único caminho para chegar ao conhecimento da realidade.
Um dos grandes expoentes do Realismo foi o saudoso Eça de Queiroz. Eça chamou a si a glória e “ergueu um dos monumentos mais altos de Arte e cultura deste país”: Os Maias.
Os Maias constitui sobretudo uma análise social do quotidiano lisboeta do século XIX e encerra uma forte crítica da realidade vivida então. Num argumento que desde cedo ouvi o meu Pai nas suas ferozes discussões com os outros encarregados de educação dos meus amigos na escola, exemplo bem significativo desta crítica feroz é o facto de ser atribuída à personagem João da Ega (que muitos analistas consideram tratar-se do próprio Eça) a escrita de um ensaio literário As Memórias de um Átomo. Este (João da Ega), ao longo de Os Maias vem, permanentemente, sendo inquirido sobre para quando a conclusão desse livro ou ensaio. Até que mais tarde responde: “Estou à espera que o País aprenda a ler”. Esta frase célebre encerra em si mesma uma tremenda crítica à instrução pública, à educação e ao problema do analfabetismo. Curioso é – e isso é que vem ao caso – o quanto essa crítica é actual.
Incrível, como quando lemos Eça de Queiroz, e sabendo que tudo foi escrito há dois séculos atrás, tudo se mantém tão contemporâneo e, ainda hoje, a política, tal como a sociedade, precisa de uma mudança.
Será que Eça é que era demasiado evoluído ou nós demasiado atrasados?
Talvez os dois. Talvez por isso, em tempos de crise, o devêssemos relembrar mais.
VI - A costa Adriática. Saudades de Lisboa
Mais uma vez fomos cumpridores nos horários e largámos Budapeste à hora decidida por todos. Mais uma longa viagem de comboio nos levaria novamente ao local por onde já tínhamos passado durante um sonho constantemente interrompido numa carruagem. Voltávamos a Zagreb, na Croácia.
A Croácia é um país com uma história recente: república democrática apenas desde 1990, desde a adopção da constituição, depois dos conhecidos anos de guerra que afligiram a Ex – Jugoslávia. É, pois, um país cuja população com marcas profundas desses anos, pois qualquer família tem um Pai, um primo, um tio, um irmão, ora ferido da guerra, ora perdido, ora marcado.
Embora a sua triste história, estes dias na Croácia, porém, julgo que nos surpreenderam pelo seu desenvolvimento turístico e simpatia do povo.
Chegámos a Zagreb na manhã quente do dia 5 de Agosto. Zagreb estava deserta, tal como Lisboa no oitavo mês do ano. Quente e sem pessoas, todas deslocadas para outros lados mais apetecíveis para aproveitarem as suas férias.
E foi assim mesmo que fizemos. De mala às costas, novamente nos deslocámos até ao posto central de venda de bilhetes. Aquele não ia ser decididamente o nosso ponto de paragem.
Zagreb era no Norte da Croácia e nós queríamos era ir a descoberta das praias que tantos livros e pessoas já haviam referenciado. O próximo destino era Zadar, o ponto mais a Oeste da região Dalmácia.
Lembro-me que comecei a escrever este texto enquanto estávamos a apanhar sol em plena Costa Adriática da Croácia, a poucas dias de começar a fase de retorno, que nos levaria de volta a Portugal. Dentro de menos de duas semanas sabia que pensaria: Que saudades desta água tão límpida e quente, que não se compara com a nossa tão fria.
Mas, por outro lado, também tinha saudades da nossa areia, que por aqui não existe. Percebi ali, naquele instante, que é impossível conseguir ter o melhor de dois mundos.
Ainda andámos por Roma, Sul de França, Barcelona. Mas a oportunidade e a inspiração para escrever não chegaram. E escrever a posteriori não dará o mesmo valor ao relato, mas que estou certo que perdurará para sempre nas nossas memórias. Toda a cidade de Roma a pé num dia, o comboio de refugiados até ao Sul de França e a noite na pensão de duas estrelas junto à estação de comboios de Montepellier e as Ramblas.
Estamos agora no último comboio, na última das dez viagens que o nosso bilhete permite.
Faltam poucas horas para chegar a Lisboa e, por fim, deixarmos de nos ver 24 horas sobre 24. Nestas viagens as amizades constroem-se. Porém, já têm de existir de antemão. A estrada, com curvas, contra-curvas, muitas rectas, alguns buracos no alcatrão, já têm de existir. A Europa, os sítios que visitamos, e o Mundo que juntos desejamos, apenas ajuda a aumentá-la, tornando-a maior e com mais paisagens bonitas.
Durante 20 dias, com mais do que cinco alterações no roteiro inicial, estivemos em Espanha, França, Itália, Eslovénia, Hungria e Croácia. Visitámos ao todo 7 países, incluído o Vaticano.
À ida, o mais difícil é partir. À vinda, o mais difícil é chegar. Contudo, julgo que podemos concluir que viajar nos dá tranquilidade, mas também cedo chegam as saudades de Portugal. E lá fora percebemos que em muitas coisas o nosso país não é assim tão mau. Como Eça comunicara em tempo a Ramalho: “Estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa.” O melhor de viajar é sentir falta. Viajar nunca é demais. Ir além fronteiras, abrindo a mente. E voltar revitalizado.
Com poucas páginas restantes no meu caderno para escrever, não seria capaz de terminar este roteiro, repleto de textos que sempre quiseram ser curtos, com pouco cheiro, mas alguma água na boca para que quem leia procure a sua própria viagem e saiba escolher os seus companheiros, sem escrever que vos adoro, meus amigos, meus camaradas de descoberta de lugares e de nós próprios, meus irmãos.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Investiguem-se
O primeiro (ou o segundo?) princípio de uma Universidade é a busca de conhecimento novo.
O segundo princípio (ou o primeiro?) de uma Universidade é a transmissão do conhecimento, o ensino e a difusão da ciência, da tecnologia, das letras, das artes e a formação de profissionais aptos a trabalhar e que, assim, contribuem para o conhecimento da realidade do País e para o bem-estar dos cidadãos.
Julgo que a dicotomia entre qual é o primeiro e o segundo principio de uma Universidade assenta simplesmente na figura em que estivermos: se somos o estudante ou se somos o professor ou o investigador.
Se formos o estudante o ensino superior serve primariamente a qualificação do cidadão e o primeiro princípio é claramente a busca do conhecimento novo. O caloiro é até visto, nas praxes, como “besta, remeloso, pestilento, desprovido de qualquer tipo de inteligência, mentalmente estéril, etc.”
Mas o professor ou o investigador, por seu turno, qual é o seu primeiro principio?
É importante lembrar que o professor ou investigador já passou pelo tempo de estudante, sendo que o vice-versa não se verifica, necessariamente. No entanto, salvas as excepções, o problema é que muitos professores e investigadores se esquecem que um dia também sentiram na pele as directas do estudo, a antipatia matinal, o serem prejudicados, a falta de oportunidades de observação, a falta do conhecimento que não vem nos livros, etc.
Na altura, deverão ter pensado que nunca seriam assim e que quanto mais cedo um jovem, independentemente de eles não terem conseguido, se pudesse iniciar na pesquisa, melhor. Mas hoje, talvez da proximidade com os laboratórios e com “qualquer coisa mais”, tantos sofreram “mutação”.
É claro que se tem de procurar adoptar as condições ideais e mesmo razoáveis para a estruturação de uma boa Universidade e isso passa necessariamente por políticas de apoio aos cientistas mais activos e dinâmicos e abrindo oportunidades de trabalho aos jovens mais promissores.
Todavia, deve-se formar mais pesquisadores capazes de desenvolver a sua capacidade intelectual com plenitude e com vigor. Deve-se formar mais doutores e profissionais jovens com a imaginação e o entusiasmo característicos da juventude. Deve-se recrutar pessoal discente para a pesquisa, nem que seja só para observar, pois funciona como incitação. E nem nas aulas teóricas há relatos.
As parcas estatísticas não são assintomáticas.
As Universidades não podem ser escolas onde haja só salas, cadeiras e investigação, mas relações entre mestres e discípulos. Não podem ser lugares onde as pessoas vão fazer as suas pesquisas e fabricar os seus currículos, muitas vezes com pouquíssimo interesse pelos jovens que ali entram. Não podem ser os professores com a autoridade, os assistentes com a obediência e os alunos às vezes, injustamente, reprovados.
Um Ensino reformar-se todo ele de repente? Só profundamente. E uma reforma não se faz em três meses, nem em três anos. É muito difícil o Ensino ser bom quando o País não o é.
Não há segredo na constituição de uma boa universidade, não há mistérios indecifráveis. São apenas as condições históricas, políticas e sociais reinantes e o estágio de desenvolvimento a verem-se ao espelho.
Na melhoria das Universidades, tem cada um de olhar ao espelho e gostar daquilo que vê.
Tem de cada um defrontar o Mundo com cada vez mais capacidade de trabalho e não o recurso ao “lado fácil”. Têm de existir recursos e autonomia real de gestão para implementar o mérito, a competência e a vontade de ensinar como princípios.
Mudando as mentalidades chega? Só profundamente. E começa-se pela credibilização das Instituições. O País é melhor com bom Ensino. Thomas Jefferson dizia que a sua glória estava em ter fundado uma Universidade e não em ter sido Presidente dos E.U.A.
Há estudos que dizem que, com o aquecimento global, o planeta estará congelado em 2080. É bom, então, que, rapidamente, se constitua conhecimento novo e a sua transmissão se verifique. Tem mesmo de ser, se não, a longo prazo, de nada adianta estabelecerem-se estruturas uniformes e leis e regimentos e cunhas e regulamentos e comissões e boletins e processos de selecção e esconderem-se apontamentos e programas das disciplinas e horário das aulas e grupos de estudo e falta de entreajuda dos colegas e teses e relatórios e distinção e louvor.
Publicado na revista Aula Magna em 10 Fevereiro 2008
Cancro oral: uma outra Torre de Babel
Normalmente, nestas linhas que tanto prazer me dão escrever, se tem falado sobretudo acerca de dentes, cirurgia, estética e tratamentos actuais que os avanços da tecnologia e da medicina permitiram. Hoje, porém, o objectivo central foi outro. Foi o de prevenir e sensibilizar.
Um total de 1,399,790 novos casos de cancro com 564,830 mortes consequentes era esperado nos Estados Unidos no ano de 2006. Desde 1999, o cancro, quando agregado por idade, parece ter ultrapassado a doença cardíaca como a principal causa de morte para idades inferiores a 85 anos. Actualmente, uma em cada 4 mortes é resultado de cancro.
A doença cancerígena é caracterizada por um crescimento descontrolado e ininterrupto de células neoplásicas aberrantes. As células cancerígenas fazem uma invasão destrutiva dos tecidos através de uma extensão para locais à distância por metástases.
(A Torre de Babel, Pieter Brueghel, 1563, um paradigma do crescimento descontrolado)
Entre os homens, o cancro da próstata (o mais prevalente), dos pulmões, dos brônquios, do cólon e do recto somam um total superior a 56 % de todos os novos cancros diagnosticados. Nas mulheres, o cancro da mama continua a ser o mais prevalente.
No ano de 2005, a American Cancer Society relatou aproximadamente 31 000 cancros da cavidade oral e faringe e 7500 mortos devido a esta doença.
Em média, 95 % dos cancros orais são encontrados em doentes com mais de 40 anos e diagnosticados aos 65.
Durante as últimas 5 décadas a taxa de sobrevivência a cinco anos não tem sofrido alterações. Aproximadamente 47 % dos doentes com carcinoma da cavidade oral ou faringe e 44 % na laringe sucumbem à sua patologia 5 anos após o diagnóstico.
O cancro oral inclui uma variedade de neoplasias malignas que poder ocorrer em qualquer localização anatómica da cavidade oral (língua, mucosa, lábio (…)).
O consumo de álcool e tabaco são os factores de risco para o cancro oral mais frequentes no mundo ocidental e outros incluem o estilo de vida e algumas patologias concomitantes como a sífilis ou situações de imunosupressão.
(Crânio com Cigarro, Van Gogh, 1885)
O plano de tratamento oncológico resulta de uma conferência multidisciplinar de várias especialidades médicas e da aprovação do mesmo pelo doente e/ou familiares. Este é baseado no estadio tumoral, obtido através do exame intra-oral, biopsia e estudos radiológicos e da idade do doente. As modalidades de tratamento consistem na quimioterapia, radioterapia e a cirurgia ablativa do tumor.
A ressecção cirúrgica destas lesões malignas no maxilar superior, pela sua extensão, pode provocar comunicações da cavidade oral com as fossas nasais, que podem comprometer a totalidade do palato duro e mole (“céu da boca”). Isto pode originar refluxo de fluidos e voz nasalada, com algum comprometimento do ponto de vista social.
Relativamente aos tumores da mandíbula, a extensão é variável consoante o tumor. Mas mesmo em estadios pouco avançados, a cirurgia na base da língua tem normalmente um impacto negativo na fala e deglutição.
Além disso, ao contrário de outras regiões do corpo, a cabeça não pode ser escondida e, perante defeitos adquiridos, a modelação estética fica inexoravelmente comprometida.
Na doença oncológica os doentes passam por um processo longo e complexo, que os afectam do ponto de vista psicológico, seja pela afectação psico-social e reacção perante a doença diagnosticada ou perante a perda de estruturas anatómicas que vão influenciar a sua vida normal, nomeadamente na fala, na mastigação e na estética.
Em Portugal registam-se cerca de 1500 casos novos de cancro oral por ano (1200 homens e 300 mulheres).
Uma elevada percentagem de casos de cancro oral são diagnosticados no estadio T3/T4 (uma fase tardia e extremamente avançada) pelo que os esforços que têm vindo a ser feitos para a detecção precoce não têm apresentado os resultados desejados.
O médico dentista tem um papel fulcral nesta patologia, tanto no rastreio, como no diagnóstico primário, aconselhamento em relação aos factores de risco e fazer um acompanhamento do doente durante e após o tratamento.
É fundamental que faça a sua consulta regular de 6 em 6 meses e exija que o seu médico dentista/higienista oral realize o seu rastreio de cancro oral.
Sorria para si: observe o lábio superior e inferior, parte exterior e interior, incluindo as gengivas, o interior das bochechas, a garganta e o palato (céu da boca).
Observe também a língua por cima, nos lados e por baixo, incluindo o pavimento da boca. Palpe ainda suavemente a face e o pescoço, na procura de nódulos aumentados.
Não deixe de julgar estranho se, eventualmente, aparecerem tumefacções, alterações de cor e manchas na cavidade oral que se mantenham por mais de 15 dias e consulte imediatamente o seu médico dentista. Ele realizará o seu diagnóstico ou encaminhará para uma unidade especializada.
Como escreveu um dia Benjamin Franklin: "A pessoa pode adiar, mas o tempo não." A eliminação prévia dos factores de risco, como o álcool e o tabaco, e/ou a detecção do cancro oral de uma forma precoce são critérios fundamentais, tendo em vista, por um lado, prevenir e, por outro, diagnosticar o tumor num estadio menos descontrolado e, desse modo, o tratamento poder contribuir para maiores taxas de sobrevivência dos doentes.
Cancro significa caos e desordem. Desordem no viver, no sentir e no pensar. É uma outra Torre de Babel. Seriamente, previna-se.
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Reabilitação Oral e Estética
domingo, 15 de maio de 2011
Questões pós-aborto
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Esta foi a pergunta feita aos Portugueses em referendo a 11 de Fevereiro 2007. A resposta foi, por maioria, «sim» à despenalização do aborto. Os resultados oficiais contaram com 59,25 por cento dos votos no «sim» e 40,75 por cento no «não» e fora da decisão ficaram 56,39 por cento de eleitores, contribuintes para a abstenção.
Aborto é um conceito lato que implica a interrupção da gravidez, que pode ser espontânea ou provocada.
O debate ético em volta deste tema inicia-se nas questões relacionadas com o princípio da vida: as mulheres têm o direito de interromper voluntariamente a gravidez indesejada? Ou é o estado a proibir? Deve o aborto ser permitido em alguns casos e noutros não? Deve o aborto ser legalizado?
Nas principais linhas de argumentação contra a questão do aborto (qual é a questão do referendo?) vêm o facto de a vida ser inviolável e a vida e o ser humano serem um conjunto. Abortar é assassinar.
Por outro lado, na argumentação a favor da questão do aborto (qual é outra vez a questão do referendo?) julga-se que este deve ser permissível porque a sua proibição leva a consequências indesejadas, a autonomia, o direito moral e a escolha ser respeitada.
Todas são insuficientes, pois a partir de que altura do desenvolvimento embrionário se pode conferir o direito vida de forma completa? Até existir esta resposta, nada será certo.
Ninguém pode afirmar que a liberalização da interrupção voluntária da gravidez constitui uma solução que acarreta consigo mais vantagens do que prejuízos. Mas seria a alavanca do direito penal a única coisa que o impedia?
O “não” alega-se pró-vida, mas o “sim”, só porque é antagónico do “não”, não é propriamente “anti-vida”, é “pró-escolha”.
Mas mais do que tudo as campanhas estão a discutir coisas diferentes: sim à despenalização e não à liberalização. São coisas diferentes. Contra o aborto somos todos.
Ambas as campanhas foram, em certa forma, hipócritas (acho que a pergunta inicial quase ninguém a sabia até se deparar com o boletim de voto no dia do referendo) e a que foi menos foi a que ganhou.
Lembro-me que, por altura das eleições autárquicas em 2005, pós-legislativas, pré-Presidenciais, não se falou uma única vez em aborto. Na América, cada vez que acontecia alguma coisa, George W. Bush falava em Aborto: manobra de distracção.
Eu quero acreditar que, em Portugal, foi antes um grande debate. Mas que ainda não terminou.
A prioridade do nosso país e do nosso Governo tem sido de diminuir drasticamente um défice que tarda em querer atingir níveis considerados admissíveis por todos os economistas e em particular pela União Europeia.
Aos “sacrifícios necessários” já anunciados, e, nesta travagem, na área da Saúde, já se deram todo o tipo de cortes, seguindo-se aí certamente mais medidas económicas.
Ao ter “ganho” o “sim” no referendo do aborto, como lógico, os custos do Serviço Nacional de Saúde aumentaram. O orçamento da saúde é o coberto pelos impostos e constitui o esforço financeiro máximo consentido pela riqueza produzida pelo trabalho dos cidadãos, segundo a política fiscal. Onde se irá buscar então o dinheiro para os custos de aborto?
Há uns anos atrás, um ministro da Saúde Francês chegou a afirmar que o seu Ministério não teria o défice que apresentara no ano anterior se todos os doentes “terminais” assistidos nas UCI (Unidade Cuidados Intensivos) tivessem morrido, oito dias antes, por interrupção dos cuidados. Foi o primeiro sinal de frieza da Economia.
Sem sectarismos, será que a seguir vem mesmo a eutanásia?
A eutanásia “é a morte deliberada e intencional de uma pessoa, a seu pedido, executada por outra pessoa que acolheu o pedido e decidiu dar-lhe satisfação”. Uma prática proibida em Portugal, como se sabe.
Na eutanásia os principais valores em causa são a vida humana. Existe uma grande Argumentação pró-eutanásia: primeiro, porque é a pedido do doente e desde as bases do Principialismo que se deve reger o respeito pela autonomia. Mas até Kant dizia: “a autonomia não pode ser auto destrutiva” e acção médica é o bom controlo dos fármacos, e uma situação deste tipo suscita num profissional de saúde um conflito de deveres entre o dever médico de respeitar a vida e o dever médico de aliviar o sofrimento. O argumento “se a medicina, criou o problema a medicina que o resolva” é fraco, pois os médicos (alguns) são responsáveis por muita coisa, mas não são responsáveis por existirem doenças.
Por seu turno, a argumentação contra eutanásia incide sobretudo no respeito pela vida e proibição de matar. Mas autonomia significa liberdade de escolha e o valor da vida tem de ser entendido em situação.
Todo o sofrimento não pode ser controlado (0 a 20 % continua com dor incontrolável), como tal, argumentar melhores cuidados paliativos, quando Erwing em 1930 já separou o cuidar do curar, levando à desumanização dos cuidados de saúde, também não parece a melhor solução.
Existe, de facto, argumentação contra e a favor da eutanásia e cada uma delas apresenta ainda contra-argumentação, sendo todas elas alicerçadas numa coisa: a aceitação da vida como um bem “auto-disponível” ou não.
De uma coisa, pelo menos até hoje, estamos todos de acordo, o acto de morte não pode ser por simples decisão médica, mas muito menos por simples decisão administrativa. Pois bem, a eutanásia que seja mais um dilema, não mais uma medida económica.
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sábado, 14 de maio de 2011
A guerra dos dentes perdidos
Esta semana, pode dizer-se, foi plena de peripécias que se traduziram todas afinal numa conclusão comum. Começou segunda-feira de manhã bem cedo. O meu amigo José Luís Guerreiro (nome fictício, por uma questão de brio e sigilo profissional) tinha mais uma consulta comigo, a propósito de um tratamento de reabilitação oral que tem vindo a realizar, de forma a repor os dentes que perdeu na guerra em África faz mais de 30 anos.
Convidou-me para ir ao café em seguida. Falou-me que anda deprimido e que não entende por que lhe parece que não existe volta a dar. É um sentimento novo, que sabe que não faz sentido, mas que teima em não conseguir debelar.
Por um lado compreendi-o. Eu que sou tão novo ainda, com 27 anos, e sinto que este país me está constantemente a desmotivar, imagino a quem já viu e desiludiu mais e se lhe afiguram menos anos para dar a volta. Mas por outro retorqui que tem de reagir e que a boca nova será uma grande ajuda.
Terça e quarta-feira não deixaram de ser dias normais, ou iguais, entre vindas e desavindas do consultório, do laboratório, às praias do Estoril e a casa almoçar, dormir e passear o cão.
Na quinta-feira, ao final da tarde, fui ouvir uma lição de António Lobo Antunes, a 100ª em virtude de um ciclo de conferências organizado pela Universidade de Lisboa em honra da comemoração dos seus 100 anos.
Sou sincero quando admito que de todos os livros que tenho de António Lobo Antunes em nenhum ainda consegui passar da 2ª página. Leitor assíduo de todo o tipo de livros desde cedo sinto, porém, falta de bagagem, cavalos e carroçaria para o compreender. A anos-luz da sua genialidade é onde me sinto. Contudo, a lição que ouvi foi retumbante, um refrescar de alma e, provavelmente, a lição que ainda me faltava ouvir na Universidade, mesmo depois de me ter licenciado.
2 x 2 = 4 é uma parede, disse ele, citando Dostoevsky.
Voltei a arriscar. Cheguei a casa e abri Ontem não te ouvi em Babilónia. Nada. Fui a uma festa com uns amigos. Deitei-me cedo e acordei tarde, ou melhor, ao contrário.
E sexta-feira, de novo, um veterano da guerra de África a quem dei uma consulta de primeira vez. Logo na radiografia panorâmica eram evidentes os dentes em falta que se prontificou a dizer que tinham sido “arrancados” em plena selva.
Mas era Lobo Antunes que não me saia da cabeça. No final da conferência experimentei cumprimentá-lo e a ideia anterior de figura superior
que é
e antipática
com estranhos, o que aceito e julgo normal, embora nesse aspecto contradiga a característica anterior,
voltou a estar presente,
que é
e antipática
com estranhos, o que aceito e julgo normal, embora nesse aspecto contradiga a característica anterior,
voltou a estar presente,
Tinha tanto de genialidade, como de antipatia.
pensava.
Toca o telefone. A minha Mãe ligava-me da FNAC. Queria uma opinião para um presente que iria oferecer numa festa de anos. Disse o que pensava e desligámos o telefone com um beijinho e um “até logo”.
Liguei-lhe de novo
- Mãe, compra-me as crónicas do Lobo Antunes, por favor.
Acabado de sair o quarto, esgotado o primeiro, trouxe-me o segundo.
E ainda bem. Do índice transportei-me imediatamente para a crónica: Receita para me lerem. Embora de uma densidade que não dá azo a retirar o que seja se não estivermos com concentração, compreendi-o pela primeira vez
mais ou menos
e passei a meta da 2ª página
(a crónica tinha três)
Adormeci. E hoje é sábado.
- Que calor
Vi logo da janela. Passei o dia a banhos, entrando de cabeça na piscina com medo do choque térmico, saindo da água com um sorriso inacreditável. E entre cada salto crónicas, crónicas, crónicas…
“ (…) Acabado o tema principiei a roer a caneta em busca de uma gesta equivalente. Não sei por que misteriosa associação vieram-me à cabeça as minhas aventuras com dentistas, sobretudo o soldado que me arrancou um dente a sangue frio em Angola. Eu, que não bebo, trouxe uma garrafa de uísque a dividir por dois. Para mim como anestésico, para ele a fim de lhe estimular a coragem. Após umas golaças a meias sentei-me numa cadeira de ferro, ordenei
- Vamos a isto
e abri a boca. Nada. Ficou de turquês em punho, imóvel. Estendi-lhe a garrafa
- Mama-me lá um bocado como deve ser.
O líquido desceu até à parte de baixo do rótulo e o soldado, possuído de uma fúria que roçava o delirium-tremens, enfiou-me o joelho na barriga e desatou a puxar garantindo-me
- Seja cego se não há-de sair, seja cego se não há-de sair.
Nunca encontrei olhos tão vermelhos e espumava. O dente saiu de facto, mas saiu-me também a caveira pela boca. Toda a caveira. Talvez não exagere se afirmar que doía um bocadinho. Não existia um nervo em mim que não tilintasse campainhas. Julgo que o pelotão inteiro assistiu à degola, fazendo apostas sobre o número de vértebras dorsais que acompanhariam a caveira. Mil anos que viva que não me esqueço do barulho do molar ao quebrar-se.
Achei o assunto por assim dizer doloroso e pus os dentistas de lado. Vazio horrível: e agora? A infância? Não. A literatura? Nem falar. Política? Esquece. O barulho do molar apareceu-me de novo na lembrança. Graças a Deus por pouco tempo (…) ”
(António Lobo Antunes. A crónica que não consegui escrever. Segundo livro de crónicas. 2002)
Registei imediatamente que nas próximas consultas terei de pesquisar por eventuais raízes residuais daqueles dentes perdidos.
E já tenho tema para o próximo café com o meu amigo. Um homem que sofre dos dentes é sempre um homem amargurado. Nunca um houve um filósofo que conseguisse suportar pacientemente uma dor de dentes, disse William Shakespeare.
No século XXI, e sem guerras, os números relativos aos dentes extraídos dos portugueses continuam a ser impressionantes. E com uma imensidão de consequências na saúde.
Com excepção daqueles sem outra indicação ou alternativa, a extracção de dentes
apenas (porque o mais significativo é não cuidar)
não pode ser vista, nem pelas pessoas, nem pelos médicos dentistas, com leveza e com normalidade. Afinal estamos a falar de higiene, do nosso corpo e da natureza.
Os tratamentos de medicina dentária hoje são de outro nível. De outra exigência. Sob pena de entrarmos na máquina do tempo e sermos todos retratados de novo por Caravaggio, urge que se consiga escrever
Os tratamentos de medicina dentária hoje são de outro nível. De outra exigência. Sob pena de entrarmos na máquina do tempo e sermos todos retratados de novo por Caravaggio, urge que se consiga escrever
Caravaggio, 1607, Palazo Pitti, Florença, Itália
(e fazer)
alguma coisa sobre isso.
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